17 de nov de 2010

Cap 1: Mortalmente atingida

A fome não vinha, tinha que forçar, como chuva que precisamos produzir quando o período de seca é longo. Eu era uma garota normal de 18 anos. Esse era todo o problema: normal entre os superhumanos significava ter o dobro de cuidado que eles, já nascidos com gens mapeados para terem os melhores remédios, produtos de beleza e todo tipo de benefício do avanço da natureza. Eu precisava me acostumar com a fome para parecer sempre magra e bonita e ninguém na escola me descobrir.

Parece que meu pai leu meus pensamentos quando comprimi meus lábios por alguns segundos ao fitar o copo de leite. Seus dedos deslizaram sobre o tampo da mesa e empurraram o recipiente de vidro, forçando que eu o considerasse:

-Beba, Aurora. Você precisa. _lembrou-me.

Virei o rosto para o lado. As flores rosas estavam lindas brotando no jardim em plena primavera, mas não era por elas que um sorriso distraía meus lábios. A mensagem codificada do meu pai sobre a importância do cálcio para o meu corpo humano era por enquanto exagerada. Com tanta juventude, não tinha que preocupar com artrose, artrite, etc. Mas, desde pequena ele me adiantava a memória do futuro.

_Por nós! Aurora? _ agora era a voz da minha mãe, facilmente se deliciando com uma torrada coberta de geléia. Sua beleza impecável aos 40 anos em deixavam em dúvida, se sozinha, por minha própria genética, conseguiria tal feito. Minha mãe já fizera tantas intervenções cirúrgicas pra ser perfeita que pensei por um momento não ser fácil pra ela também. _ Querida, precisa se cuidar, está estranha há uma semana. Alguém lhe falou algo na escola, descobriram que não é nossa filha biológica, que você não pode receber modificações...? _desesperou-se.

_Não! _respondi, minha voz saindo mais alto do que costume por falta de medida. Afaguei-lhe a mão. Jamais gostaria que se sentisse aflita pela possibilidade de que eles me achassem e fizessem mal. _Eu estou perfeitamente disfarçada. Vou conseguir me formar. Estou com ótimas notas. _peguei o copo e caminhei até a pia rapidamente. Engoli de uma só vez, sem respirar e bati a base de vidro no granito.

Só eu sabia o esforço que tinha que fazer para estudar dezenas de vezes mais que meus colegas, apenas para parecer mediocremente habilitada a passar de ano. Eu não podia contar com os chips implantados atrás da minha orelha para buscar toda a gama de informações na nuvem da internet a qualquer hora.

_Eu não estou preocupado com sua bolsa, sou o professor de lá e não fariam isso comigo. _ meu pai respondeu, levantando-se com o jaleco branco já abotoado e pasta na mão. _Eu só não quero que ninguém a machuque...

_Está tudo ótimo. _apoiei as mãos atrás de mim na pia e mordi os lábios._ Mesmo! _reafirmei. _Meu cabelo, minha pele, meu corpo, não está tudo perfeito?

_Está pra você?_ minha mãe questionou.

Levemente balancei a cabeça, encontrando as sobrancelhas na testa.

_É alguém que a está fazendo se sentir feia? _pressionou ela.

Virei-me, meus olhos lhes diriam. Pus-me a deslizar o dedo sobre a tela na porta da geladeira, clicando nos itens que precisávamos comprar pela internet para abastecê-la, como forma de distração.

_Aurora, você está apaixonada? _ o seu tom de imediato susto com a própria hipótese requeria toda a minha ênfase:

_Não, mãe! _quase gritei. _Eu só estou em períodos de prova e preciso estudar muito. A ansiedade me tira a fome. É normal. Normal pra mim... _ suspirei e peguei minha bolsa. Ela certamente teria o remédio certo pra isso e eu precisava agüentar firme pra não enlouquecer ou comer todo o chocolate da despensa, mantendo minha fome em níveis quase dolorosos. _Minha carona chegou. _ anuncei num falso tom alegre ao ouvir a buzian do carro de Sandrinha. Se não saísse logo dali, meus pais adotivos começaria uma daquelas discussões: “não vai ser bom pra você ficar com um superhumano, eles vão machucá-la.”

Meus pulmões aspiram o ar úmido e fresco da manhã, florindo minha alma com o cheiro doce das pétalas. O aroma era tão bom. Coloquei os dois micropontos no ouvido e liguei o som bluetooth do meu celular no bolso. O playlist tinha as minhas músicas preferidas. Sentei no carro de Sandrinha que passava maquiagem no espelho. Enquanto seu carro estava no piloto automático e automaticamente regulava-se com os outros a nossa frente, não tinha com que se preocupar. O veículo encontrava sozinho o seu caminho. O problema é que seu GPS estava com problemas e acabamos fazendo um percurso mais longo essa manhã.

_Ainda bem que estou com você. _ ela aliviou-se com a segurança de que estando com a filha do professor e diretor da escola, ninguém nos barraria na entrada. Mas, será que isso ainda tinha efeito uma hora de atraso? _Eu esqueci uma coisa no carro. Droga, me espere aqui. _ pediu e eu continuei parada no meio do corredor do estacionamento ao ar livre, trocando de música com a ponta dos dedos enfiados no bolso.

A música nos meus ouvidos estava alta, mas não foi suficiente pra abafar um ruído estridente de motor e depois de pneus cantando. Foi, em um reflexo de segundo, que meu rosto virou para trás e viu a caminhonete cinza seguir em minha direção em toda velocidade. Como disse, era um relance, um frame de segundo, não havia chance de me mexer... E tudo aconteceria. Um só golpe me mataria.

_Aurora! _ ouvi o grito da minha amiga, que previu a cena que estava prestes a ver.

Eu podia fingir ser uma superhumana, mas ficaria claro quando me levassem para o hospital que eu não era apta a receber transplantes biônicos ou fazer intervenções complexas, pois sabe-se lá por que meu corpo rejeitava qualquer procedimento desses quando nasci.

Eu era uma fina e frágil película de bolha de sabão. Sempre pensei que a morte chegaria bem rápido pra mim, mas não há 120 por hora e a 4x4! Uma descarga de adrenalina inundou minhas veias e eu só consegui encolher os ombros quando o veículo virou noventa graus sobre o meu eixo e num drift perfeito entrou na vaga que eu nem reparava estar ao meu lado. O motor desligou e o silencioso foi quebrado pelas passadas rápidas de Sandrinha em minha direção. Só entendi que não tinha morrido quando ela tocou meu braço e me sacudiu.

_Tudo bem? Quem é esse maluco, alucinado? _ gritou e ameaçou um xingamento, quando a porta destravou-se e ele pulou pra fora.

Era alto, provavelmente quase dois metros, ombros muito largos e braços tão fortes que eu juraria ter uns cento e vinte quilos de músculos. Seu cabelo raspado e o rosto duro, de ossos retos e firmes só não estavam em harmonia com o doce par de olhos azuis mais lindos que eu já vira em toda a minha vida. Era incomum as mães escolherem olhos azuis para os filhos, a moda andava sendo lilás, vermelho, dourado. Mas, aquele azul claro e límpido era pacífico e amigável.

_Te assustei? _a voz grave e rouca me fizera engolir em seco. Agora estava tão perto que podia sentir o perfume delicioso vindo de todo o seu enorme corpo. Eu senti que isso sim podia me matar, pois meu coração estava desgovernado como aquele carro possante. _Eu costumo dirigir bem, não ia te atropelar. _piscou e sorriu.

_E, se eu tivesse dado um passo a frente e saído dos seus cálculos? _ meu cérebro foi rápido em contra argumentar.

Ele ousou dar o passo que diminuía a distância mínima a estranhos. Pegou a minha mão com a sua palma sobre as costas da minha e o dedo mindinho tocando meu ponto de pulsação.

_E o que faço por ser tão ruim de matemática? _beijou com os lábios febris e levemente úmidos a zona abaixo do meu polegar, na lateral da minha mão, escorregando a carne macia da sua boca por aquela região, o que eriçou todos os pelos do meu braço. _Acha que pode me perdoar? _a sedução em sua voz, os olhos fitos em meu rosto e o seu hálito tão perto era como estar diante de uma grande fera faminta, aguardando a sua hora. Eu não podia em qualquer hipótese me encantar por um superhumano como aquele, mas os efeitos estavam sendo devastadores.

_Eu estou atrasada... _tentei puxar minha mão, mas a sua não largou o meu pulso e isso me assustou mais ainda. _... Tome mais cuidado por onde anda... _ virei o rosto.

_Meu nome é Douglas, os amigos me chamam de Doug. _apresentou-se. _E o seu?

Virei o rosto só um pouco e através do meu cabelo olhei pra trás:

_Que importa?

_Sou novo por aqui e é bom conhecer as pessoas... _deu de ombros e pela primeira vez mostrou o sorriso aberto, o que me fez mudar de opinião sobre seus olhos, isso sim era de amolecer as pernas. Perfeitamente brancos, moldados, lindo.

_Eu me chamo... Aurora.

_Aurora. _repetiu e eu sabia que o tempo que dera pra concluir seu pensamento significava que estava buscando na rede o significado disso. Seu cérebro aguardava a varredura do seu chip interno. _Como aurora boreal?

_É. _respondi com um sorriso que saiu agora de mim facilmente. Não tinha mérito ele saber daquilo, mas a simples curiosidade em buscar o significado me deu um frio na barriga.

_Acho que já está bem agora... Desculpe pelo susto. _ acenou e partiu.

_Quem é o cara que acaba de quebrar o gelo do coração de iceberg da Aurora? _ Sandrinha satirizou, grudada no meu braço, soltando risinhos.

_Sem chances... _ ri de nervoso.

Continua...

6 comentários:

Gabi disse...

Não éde surprender que me apaixonaria por essa história!

Você escreve muito bem li!

Mal posso esperar pelos próximos capitulos.

Beijo

Li Mendi disse...

Oi, Gabi, fico muuito feliz que queira continuar lendo os outros capítulos. Seja bem vinda. Li.

Aninha barreto disse...

intrigante!!! será fascinante conhecer Aurora e Douglas!!!

Lívia Costa disse...

Nossa Li! se o 1º cap já está assim, imagina os próximos!!
Adorei!

Anônimo disse...

Oi Li to gostando do livro e qria receber email qndo tiver cap novos....


obrigada


ana julia.
anajulia_789@hotmail.com

Aninha Barreto disse...

olá Li queridaaaa!!! Depois de muito tempo estou de volta e lendo com muita saudade os capitulos deste livro!! Andava com saudade disso tudo!! Estou relendo a estória de Ruan e Jeni também!! Gostoso reler e me lembrar das emoções que estava vivendo...rsrsrs!!! Seus livros trazem de volta a magia da vida, o sonho de menina, o encanto de usufruir do nosso universo particular!!! Bom demais!!! bju enorme!!!

Ocorreu um erro neste gadget