19 de nov de 2010

Cap 2: Menina de fogo

Minha irmã, Gisele, mordeu o pão e balançou a cabeça em desacordo. Ela não aprovava que eu aparecesse na mesa do café da manhã, quando era dia da faxineira, sem camisa e suado depois da minha corrida diária.

Você precisa ficar se exibindo? Pousa logo para o outdoor da esquina. Reclamou através da nossa comunicação mental. Nossos pais eram bastante ricos para nos dar o luxo de ter aquela mais nova geração de chip que permite a conversa por telepatia. Eles não imaginavam o quanto era útil para nós poder trocar informações em silêncio.

Ela é uma delícia. Ri alto e bebi o suco de laranja. A garota que limpava o chão não entendia nada e nos olhava como loucos.

Coitada, é uma humana. Não pode ficar explorando esse tipo de meninas, elas são pobres e doentes, vão morrer como cigarras. Olha pra essa pele doente de espinhas. Urrgh, mal posso olhar. E quando tirar a roupa vai ver aqueles buracos de celulite e estrias, meu deus, isso é uma visão do inferno! Fez uma careta.

Você podia ser uma delas, se a mamãe não tivesse te feito em laboratório, nem bancado todas as suas injeções de juventude. Lembrei-a e sua reação foi atirar um pão na minha cabeça. Parecia que tinha dito que ela nasceria como um monstro.

E você ia gostar de não ter nascido com esse músculo todo? Metade da escola já fala de você. Acho bom andar na linha porque a mamãe é a nova diretora e qualquer coisa que faça vai chamar a atenção. Avisou.

Tipo perder o primeiro tempo de aula? Revirei os olhos. Vou andar de moto. Ela nos obrigou a vir pra essa cidadezinha, prometendo que nos divertiríamos muito. Eu vou tentar fazer isso do meu modo.

E o que eu ganho com o segredo, caro Doug?
Essa era a primeira desvantagem da mente aberta: ela podia me comprar descaradamente.

Eu vou pensar bem e te cobro depois, ficou de pé. Ela inflacionaria o pedido depois de mais meia dúzia de planos que ouvisse na minha cabeça.

Não vai ter esse trabalho de bolar, eu vou pra escola. Era tão divertida sua cara de desapontamento.

Subimos na minha caminhonete e ela ligou para sua amiga Isadora. A imagem da garota foi projetada na sua frente por holografia virtual. O assunto era superficialmente concentrado nos novos produtos contra envelhecimento que retardavam 20 anos e a coleção primavera verão. Eu aumentei o volume dos meus fones de ouvido pra não contaminar meu cérebro com aquilo.

Antes que entrasse no estacionamento, pediu pra descer na entrada do colégio, pois tinha visto de longe uma amiga. Eu queria entender que tipo de rede social ela já começara a fazer um mês antes de nos mudar que mais parecia ser a cidadã de honra desse lugar com tantos conhecidos.

Eu ouvi isso! Querido, aprenda comigo, a rede é tudo. Ela piscou, antes de pular para fora.

Revirei os olhos com tédio e acelerei o carro, pisando com força no acelerador. Virei o volante para girar a roda do carro para a esquerda a fim de derrapar a traseira para a direita e encaixar o carro na vaga. Eu adorava correr em alta velocidade. Aprendi o Power Slide com meu amigo Ricardo, o cara que mais conhece carros que já vi. É um lunático. Tem gente que confundi isso com drift. Mas, é diferente, drift é deslizar o carro de lado e manter isso por uma boa distância, não, girar e parar.

Quando realizei o último movimento, me dei conta de que o estacionamento não estava completamente vazio. Olhei através do retrovisor a garota pálida de cabelos ruivos que parecia em estado de choque. As ondas de fogo de seu cabelo tinham finas tranças douradas entrelaçadas no meio. Seus olhos verdes emitiam medo, mas não foi sua voz que comecei a ouvir na minha cabeça:

Você está maluco? Que matar a minha amiga? Eu vou denunciar você pra sua mãe!
Procurei com os olhos a dona da voz e encontrei a provável dona de um chip igual ao meu, capaz de enviar mensagens pelo pensamento. Era uma garota de cabelo liso preso em um coque, baixa e de olhos vermelhos.

Pode ver que ela está inteira, sorri e saí do carro.

Isso por uma sorte do destino. Ela não está acostumada a esse tipo de emoção, seu idiota!

Te assustei? Perguntei pra garota de fogo, agora bem mais perto.

Ela não consegue te ouvir! Não tem essa marca de chip ainda. Aurora é de uma família mais simples, seu pai é um professor cientista daqui.

_Te assustei? _ perguntei, usando minha voz matinal grave. O efeito desse som sobre ela me deixou em dúvida se gostou ou assustou mais, pois engoliu em seco e depois abriu os lábios para soltar o ar. Era bem possível que tivesse medo, mas eu não tinha cara de um maníaco atropelador. Talvez não colaborasse nos últimos minutos com essa imagem, então, sorri amigavelmente. _Eu costumo dirigir bem, não ia te atropelar. _tentei abrir um diálogo pra ouvir sua voz.

_E, se eu tivesse dado um passo a frente e saído dos seus cálculos? _ desafiou com aqueles olhos de cílios ruivos ainda mais abertos, com um tom de quem pedia piedade, mas mantinha indignação.

Estiquei o braço e peguei sua mão. O toque me permitiu calcular sua temperatura. Estava mais alta do que é o padrão e sua pressão sanguínea me preocupou.

Deixa de ser convencido. Não acha que ela está alterada, por causa de você, não é? A amiga falou em silêncio. Ignorei-a.

_Acha que pode me perdoar? _perguntei a garota que quase atropelara, mas o medo não desanuviava de seus olhos e retraiu-se em fuga.

_Eu estou atrasada. Tome mais cuidado por onde anda... _ virou-se pra sair.

_Meu nome é Douglas, os amigos me chamam de Doug. E o seu? _insisti, tomado por uma vontade de não deixá-la ir embora.

_Que importa?

Ai, que fora... Sua amiga riu em silêncio.

_Sou novo por aqui e é bom conhecer as pessoas... _usei minha cordialidade para ganhar sua difícil confiança.

_Eu me chamo... Aurora.

_Aurora. _repeti e busquei o significado que não era estranho.

Aurora é um fenômeno que acontece no céu das zonas polares, quando poeira espacial trazida pelo campo magnético e o vento solar se chocam com a atmosfera. Varri mais um pouco a rede por outra resposta: Galileu Galilei, batizou o colorido espetacular do céu com o nome de uma deusa romana do amanhecer: Aurora.

_Como Aurora Boreal? _ perguntei, me questionando agora porque escolheram esse nome. Podia ter a ver com seus cabelos ruivos flamejantes.

_É. _ sorriu, abertamente, e me senti vitorioso por aquele pequeno ganho.

Doug, o que faz aí embaixo? Vá já pra aula!
Encrenca, era minha mãe da janela atrás de Aurora, no segundo andar do prédio, me olhando irritada e gritando em minha cabeça.

_Acho que já está bem agora... Desculpe pelo susto. _ acenei e parti em retirada.

_Quem é o cara que acaba de quebrar o gelo do coração de iceberg da Aurora?

Ouvi aquela última frase pelos meus poderosos ouvidos, virei o rosto pra trás e dei um misterioso sorriso. A amiga mordeu o lábio, entendendo que eu tinha percebido sua elétrica alegria feminina.

Estou sendo irônica... Aurora não gosta de caras como você. Aquela revelação não parecia incoerente com os olhos de medo da menina ruiva. Ela parecia temer que a jantasse hoje, à noite, como um assassino sanguinário. Mas, pode ter sido também o choque do quase atropelamento.

Continua...

5 comentários:

Camila disse...

Ameeeeeeeeeeeeeeeei Li

qro mais.....


vc é boa em todos os generos de estorias
=)

bjos até o proximo cap.

Li Mendi disse...

oie camilinha.
to fazendo mil coisas, mas me esforçando pra dessa vez atualizar pelo menos 3 vezes na semana o livro.
vcs são muito importante pra mim, ficar longe me deixa muito triste.
bjs da Li.

Aninha barreto disse...

vc deu um senhor salto no futuro!!! hehehhe!!!!!! mas está intrigante!!! prossigamos nas surpresas deste livro, pois este está mais pra suspense do que romance!!! e eu adoro!!!

Lívia Costa disse...

Uau! Quanta imaginação!! Será que ler pensamentos é realmente um benefício?? hihihi!
Adorei saber a versão do Doug sobre o encontro!
Bjossss

Aninha Barreto disse...

interessante!!!!!!!

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