23 de nov de 2010

Cap 3: Frágil borboleta

Olhei o alaranjado do horizonte e me dei conta de que estava perto do anoitecer. Eu tinha subestimado meu cansaço, a tarde caia e eu não acabara a corrida diária. Puxei o ar dos pulmões, emitindo um ruído asmático pelo cansaço. Apertei os olhos para buscar concentração, mas não deixei os pés pararem, apesar da queimação na batata da perna, aquecida pelas meias até os joelhos. A umidade da floresta mantinha a temperatura agradável, apesar do calor próximo a estrada onde deixara o carro do meu pai.

Eu vinha todos os dias para essa trilha correr 15 quilômetros. No início da adolescência, quando me parecer uma superhumana se tornara uma escolha de vida, eu tive que aprender com meu pai a como transformar o meu corpo hipersaudável da maneira mais animal e menos biotecnológica possível. Era uma técnica de mil anos atrás, quando a nonobiologia ainda não tinha inventado os nanoreguladores de gordura e formadores de músculos que conferem os corpos perfeitos às minhas amigas. Ao contrário delas, ser linda e perfeitamente esculpida era muito doloroso e cansativo. Mas, ganhei também com isso um tempo só pra mim, em que eu podia aproveitar o barulho do rio e dos pássaros voltando para a copa das árvores para pensar.

Na solidão daquele recanto verde, minha mente pode ter a liberdade de sentir novamente um desejo latente: namorar. Eu já fantasiara paixões impossíveis com diversos garotos da escola e depois chorava as incompatibilidades. Nunca aprendia a impedir que voltasse a pensar neles. Dessa vez, a lembrança trazia o rosto do novo aluno da escola, Doug. Ele quase me matara, mas também me devolvera um pouco de vida aos nervos.

Quando passava por mim no corredor, era como se um campo de energia me atingisse com cargas elétricas, por mais que eu tentasse emitir a mensagem “eu ignoro sua existência”, enquanto abaixava a cabeça, apertava meu livro e mantinha os passos apressados. Porém, na aula de biologia dessa manhã, eu não consegui fingir concentração quando ele entrou pela porta e veio direto em minha direção, como se fosse falar comigo, mas não o fez, apenas sentou-se ao meu lado. Soltei o mais discretamente possível o ar dos meus pulmões e mantive os rabiscos no meu caderno.

Eu trazia sempre um computador comigo, mas tinha uma necessidade de desenhar e mexer com as mãos enquanto os professores ensinavam todas as maravilhosas descobertas científicas dos últimos séculos que permitiram a humanidade dominar o DNA, criar órgãos mecânicos, interferir no metabolismo celular e criar superhumanos. Nada disso servia pra mim, que nascera com uma fragilidade genética que não permitia esse tipo de intromissões. Mas, meu pai me explicara desde pequena que era possível ser feliz e saudável como uma humana normal, se eu seguisse todos os seus ensinamentos secretamente, o principal deles: nunca deixar um superhumano perto o suficiente pra que me descubra. E não era exatamente esse sinal que eu estava dando com minhas mãos suando ao lado de Doug.

Vi pelo canto do olho sua cabeça virada pra mim, com a cabeça encostada no ombro e isso fez o meu rosto queimar. Por que ele não me deixava em paz sob o manto do anonimato? Que tipo de diversão queria comigo? Eu não era uma da sua espécie. Os traços se tornaram mais fortes e eu rasgaria a folha, se não fugisse dali.

_Me empresta?_ a voz ao meu lado me fez estancar no meio do coração o desenho que eu começara como um c incompleto. Depois, sua mão repousou sobre a minha, provocando o meu encolhimento e descarga máxima de adrenalina pelo meu corpo. Virei o rosto pra encarar o seu e seus olhos azuis se apertaram em um sorriso que nasceu em seus lábios vermelhos. Era uma visão da perfeição que meu coração não podia lidar bem, sem contrair-se no peito.

O professor continuava a falar, movendo-se pela sala naquela dimensão virtual de projeção holográfica, mas eu já não conseguia prestar atenção em sua voz ao fundo. A sua discussão proposta com os alunos já o detinha, não precisava de mim. Estava tão longe, do outro lado do mundo na frente de um computador, enquanto eu tinha o calor e a presença física de Doug ao meu lado, escrevendo alguma coisa com a minha caneta na mão. Contrai a testa e quis saber, curiosa, o que estava aprontando. Meus dedos tocaram os seus e eu virei a palma para mim. Ele, então, mostrou um boneco desenhado com o braço delineado sobre o polegar de maneira que ao movê-lo, parecia que estava dando tchau. Eu ri baixinho daquela inimaginável brincadeira infantil do cara que quase me esmagara com sua caminhonete. Mas, eu nunca tinha chegado tão perto assim de um superhumano e não sabia que a sensação de prazer e euforia era tão prazerosa.

Peguei a caneta e desenhei uma garota com uma flor no cabelo na minha mão também, levantei os olhos pra conferir a intensidade do debate entre os alunos a frente e voltei para a brincadeira particular. Mostrei-lhe a minha mão sobre a perna e Doug estendeu o antebraço, tocando seu polegar no meu. Reparei, neste instante, que abaixo da sua pele havia uma superfície rígida. Ousei deslisar as costas da minha mão sobre a região do seu pulso e nossos olhos se levantaram no mesmo segundo pra se encontrar.

_É mecânico. _ele respondeu. _Não parece, não é mesmo? Foi em uma diversão de carro que meu punho partiu...

_Você sente, não é?_passei os dedos agora por seu antebraço e ele sorriu. Eu devia estar bancando a completa idiota humana. Óbvio que a rede neural era completamente restituída. Que pergunta de “superhumana frajuta” era essa que eu acabava de fazer. _Eu preciso ir._ agarrei o caderno, amassando um pouco as folhas. A situação de perigo me ensinava a fugir. Nem tomei o cuidado de passar pelo canto da sala, meu corpo atravessou a projeção do professor e eu agarrei a maçaneta da porta.

Agora, eu estava ali correndo ao entardecer, com meu particular prazer de relembrar o mais perto que chegara de um contato físico...

Tudo foi rápido como um choque do meu corpo contra um paredão. Será que eu não tinha visto no dia anterior que construíram uma barreira de aço na virada daquela trilha? Balancei a cabeça para os lados e senti pelo alfinetamento nas mãos que minhas palmas estavam sobre o carvalho. Então, eu caíra? Sim, meu corpo estava sentado no chão. Entre abri os olhos e vi contra a luz a parede, mas não era nada assim, tinha pernas brancas.

_...stá bem?_a voz pareceu mais próxima e na próxima vez que abri os olhos concluí que eu devia estar sonhando. _Doug?

Eu tinha dormido no sofá e não viera correr, então, caíra no sono e agora achava que Doug estava segurando meu punho.

_A gente trombou, desculpe... _mas a voz insistia em parecer tão real como nas alucinações noturnas perfeitas. _...você está sangrando.

Aquela palavra subira minha pressão arterial e o oxigênio voltara a minha cabeça. Era Doug mesmo, pois, nem em meu sonho, seu rosto de preocupação conseguiria ser tão alarmante pra mim. Passei a mão na minha testa úmida e entendi de onde vinha o sangue.

_Você bateu o supercílio na minha cabeça. _sua mão estava no meu rosto e tudo que eu conseguia pensar era que tinha que correr o máximo que minhas pernas cansadas pudessem conseguir. Ele logo descobriria que minha pele não se refazia em questão de segundos e que o sangue não pararia de coagular tão rápido.

_Tudo bem, está tudo bem. _levantei e caminhei ladeira abaixo feito um bicho ferido procurando salvar a própria vida.

_Aonde você vai? Meu carro está aqui perto... eu posso te ajudar...

Ele não podia me ver sangrar tanto. Puxei a camiseta branca e fiquei apenas com o top por baixo. Enrolei na palma de uma mão e tampei a face com o pano. Por favor, coagule rápido. Comecei a pedir baixinho.

_Está tudo bem, meu carro está logo ali. Vai parar de sangrar já.

Eu sabia que era uma mentira, então, que entrasse logo no carro do meu pai para acelerar. Mas, Doug não queria se dar por vencido e mantinha o passo atrás. Até que sua mão mecânica forte agarrou o meu braço e me virou com toda força, fazendo os meus cabelos ruivos grudarem no rosto. Ele descobrira tudo, ele agora sabia que eu era uma humana, o que faria? Contaria para toda a escola, riria da minha fraqueza?

Sua mão afastou com cuidado meu cabelo e seu rosto sério era o sim para todas as minhas perguntas: sim, ele sabia; sim, ele me esganaria; sim, ele...

O nó de choro em minha garganta ia romper a qualquer momento.

_Seu corpo é perfeito. _ seu fio de voz não seria mais sinistro, se seu rosto não parecesse dispersivo contemplando todo o meu físico malhado com muito suor e dor. Ele estava demonstrando uma contradição? Como eu podia ter corpo perfeito, sendo só uma frágil borboleta?

Ri diante da morte. Ser descoberta era quase como morrer:

_Como pode falar do meu corpo, quando eu estou machucada...?

_Desculpe, eu achei que podia correr aqui, mas não sabia que ia achar uma companhia. Eu não preciso, mas é só pelo prazer de ficar sozinho, faz bem pra cabeça.

_É... eu entendo, a gente não precisa, mas faz bem... _tentei representar o mesmo discurso. _Tenho que ir. _ abri a porta do carro e acelerei, sem ter coragem de olhar para o retrovisor.

Em casa, sentada na cadeira da cozinha, meu pai costurava minha testa com suas mãos de cirurgião:

_Não vai poder ir a escola por um tempo. Vai perder as provas.

_Eu sei.

_Ninguém viu isso, Aurora?

Por que aquele tom parecia uma afirmação?

_Não, eu já disse que escorreguei e bati em uma pedra.

Deitada em minha cama, eu fechei os olhos angustiada. Se Doug não tivera certeza que eu era uma humana, agora teria boas razões para questionar a minha ausência na escola. Mas, será que ele lembraria de mim a ponto de sentir a falta? Eu ficava com o benefício da dúvida.

Continua...

4 comentários:

Gabi disse...

Muuuito bom!
Sem palavras, quero mais!

Camila disse...

Li adorei
qro mais²

vc está otima! estória q prende hein!?

;)

Aninha barreto disse...

incrivel!!!estou surpreendida!!! vc é inspirada de fato!! que venha o quarto capitulo!!!

Camila disse...

quarto capituloooooooooooooooooo
pliiiiiiis


bjos Li

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