8 de dez de 2010

Cap 4: Meu coração não é mecânico.

E aí, pegou?, era a voz da minha irmã Gisele na minha cabeça e seu olhar zombeteiro do outro lado da mesa de jantar. Eu dei um suspiro de cansaço e olhei para a empregada, arrumando as travessas na mesa e com medo de nós, perguntou se podia sair mais cedo. Parecia assustada com o modo que as pessoas daquela casa se comunicavam. Era ignorante para entender que falávamos em pensamento por meio dos chips que implantamos.

Não vou fazer mal a essa pobre mulher, respondi-lhe, remexendo a comida no prato.
Eu estou falando da garota da escola, a ruiva.

Levantei os olhos e a encarei em total silêncio. Por que estava se metendo nesse assunto? Sim, porque isso já virara a sua especulação preferida.

_Querida! _minha mãe entrou pela porta saltitante, largou a bolsa de compras na cadeira e beijou o topo da cabeça de Gisele. _O que achou? _ficou com um sorriso aberto, esperando que matássemos a charada. Nós dois paramos de mastigar e engolimos de vagar, tentando ganhar tempo.

O que foi dessa vez? É o brinco? Ou foi uma plástica nova? , Gi estava confusa diante daquele jogo de adivinhação e eu não tinha muita criatividade pra ajudá-la. Minha mãe fazia um retoque em seu rosto a cada viagem de congresso. Rejuvenesceria tanto que não duvidaria encontrá-la mais nova que a gente qualquer dia desses ao passar pela porta. Ela aproveitava sempre a distância pra se recuperar das intervenções rápidas e chegar novíssima.

_Eu é... que te pergunto: ficou como gostaria? _Gisele tentou ganhar pistas que confirmasse, se estava falando de uma plástica nova.

_Como assim? Eu ensaiei tanto aquele discurso. Ficou maravilhoso! _ela respondeu e pegou um pouco do suco. Então, estava nos questionando se gostamos da sua apresentação! _Saiu na televisão, não vai dizer que não viram?!

Trocamos olhares e eu senti que o silêncio seria a pior resposta e resolvi deslizar para fora da mesa:

_A gente não entende daqueles termos técnicos, mas você pareceu ótima! _ sorri afetuosamente e ganhei o corredor tão logo pude.

_Vai correr? _Gisele falou da janela de cima do seu quarto, vendo-me alongar a perna no jardim. _Pensa que vai encontrá-la novamente? _perguntou debruçada.

Como sabia sobre o que acontecera? Eu provavelmente devo ter pensado alto e ela captara.
_Ela não foi pra escola esses dias, será que está mesmo se escondendo pra não vermos sua cicatriz?

Eu franzi o queixo de raiva e olhei-a com as pupilas quase encostadas nas sobrancelhas. Gi levantou as mãos no ar e saiu em retirada da janela, entendendo que eu não queria tocar naquele assunto. Eu definitivamente não poderia ter cometido a besteira de deixá-la ler meus pensamentos sobre a garota ruiva. Mas, eu chegara muito agitado aquele dia. Estava certa sobre desconfiar se eu correria para reencontrá-la, porque era o que eu tinha feito nesses últimos cinco dias de frustradas tentativas. Já não tinha mais certeza de que ela apareceria por lá.
Peguei meu carro e dirigi até a trilha verde próxima a mata. Deixei-o ali e comecei a correr. Era minha maneira de ficar sozinho, respirar um ar puro e com cheiro de terra. Uma arte milenar que poucos apreciavam agora. Eu vinha da metrópole, onde o ar era muito poluído. Li um pouco sobre os antigos supercorredores de mil anos atrás e comecei a admirá-los. Ninguém hoje em dia dava valor para esse tipo de coisas, pois há um remédio para tudo, uma perninha de DNA que muda a composição genética de qualquer bebê. Contudo, havia um pouco de superação naqueles homens fracos. Não tendo nossos superpoderes da genética, no entanto, aproveitavam mais o tempo livro pra ter paz mental, pelo menos, nas longas corridas.

Peguei a montanha e lembrei-me da última vez que encontrei com a garota ruiva. Eu, primeiramente, estacionara meu carro perto de outro na parte baixa da elevação e até supus ser de um caçador e temi correr por ali com medo de alguma bala perdida. Mas, ao olhar mais para cima, constatei que havia uma figura pequena correndo ao longe e vi que tinha uma companhia de corrida. Resolvi me aproximar, porém, na virada de uma curva nos chocamos. Seu corpo caiu para trás como se tivesse batido contra um muro. Foi, então, que me dei conta de que a garota ruiva, como se chamava..., Aurora, estava diante de mim, com as mãos machucadas pelo carvalho.

_Está bem? _agachei-me para ajudá-la, prontamente, pois parecia tonta. _ A gente trombou, desculpe... _afastei o cabelo do seu rosto e minha mão se sujou de um líquido vermelho como seu cabelo, como se este pudesse ter se derretido com o calor. _...você está sangrando.
Seus dedos encostaram em seu supercílio e a preocupação que adiara até então tomou seus olhos como um horror.

_Você bateu o supercílio na minha cabeça. _informei-lhe e tentei ver melhor, mas ela me afastou insistindo que estava “tudo bem”.

_Aonde você vai? Meu carro está aqui perto... eu posso te ajudar... _ tentei seguir seu ritmo, preocupado com o fato de tê-la machucado, mas um gesto seu me fez estancar. Suas mãos puxaram a camiseta que passou pela sua cabeça deixando revelar costas perfeitamente torneadas. Duas covinhas acima da sua bunda redonda me fizeram sentir a garganta seca. As costas também definidas revelavam as mãos mágicas do melhor cirurgião escultor.
Aurora enrolou a camisa no punho e levou ao rosto, virando-se para fazer um gesto com a outra mão pra que eu não a seguisse.

_Está tudo bem, meu carro está logo ali. Vai parar de sangrar já. _ tentou fugir, mas em uma reação rápida, puxei-a com mais força do que desejei, e seus cabelos voaram no ar até grudar em seu rosto úmido de suor. Seus cílios e sobrancelhas eram mesclados de tons castanho claro e ruivo.

Meus olhos desceram por seu colo redondo e apertado no top curto que não cobria o abdômen mais definido e lindo que já vira. Era como se segurasse um coelho fraco pelos pés de ponta a cabeça, pois seus olhos tinham medo e tive impressão de que tremia. Me dei conta de que era melhor soltá-la, apesar de não querer.

_Seu corpo é perfeito. _ pensei alto baixinho. Era a forma de super mulher mais linda do mundo. Não sei se pareci muito idiota, mas isso a fez rir.

_Como pode falar do meu corpo, quando eu estou machucada...?

Claro! Que comentário sem cabimento o meu?! Estava admirado com sua perfeição quando se machucara.

_Desculpe, eu achei que podia correr aqui... _comecei a falar coisa com coisa. _ mas não sabia que ia achar uma companhia. Eu não preciso ..._ dei-lhe explicações que nem me pedira. _... mas é só pelo prazer de ficar sozinho, faz bem pra cabeça.

_É... eu entendo, a gente não precisa, mas faz bem... _repetiu com uma voz um pouco vaga, olhando o chão.

Por que não parava de sangrar rápido? Seus super coaguladores não iniciavam a formação de pele rápido como todos os super humanos...? Meu cérebro foi interrompido por uma constatação que ela pareceu ler nos meus olhos: Era uma humana disfarçada?

_Tenho que ir. _ desceu correndo a colina, abriu a porta do carro e fugiu. Ainda voltei várias vezes desejando o mesmo encontro, mas não consegui. Ela não me saia da cabeça, se era humana, como seria possível aquele corpo tão torneado e perfeito?

Nos dias seguintes, eu vi sua cadeira vazia na classe e, de repente, aquela cidade parada me dera uma certa emoção. Tomei a decisão de perguntar para os professores se sabiam do paradeiro da garota. A Eliza de matemática me ajudara com a pista:

_O pai disse que ela teve um problema de saúde, mas que vai voltar. Está levando todos os dias o trabalho dela, não se preocupe, meu caro...

_Eu posso levar pessoalmente. _me ofereci.

Ela olhou-me sobre os óculos e parou de mexer no papel em sua mesa.

_Mas, eu posso enviar por e-mail em um milésimo de segundo e, mesmo que quisesse impresso, o pai dela é professor daqui e poderia levar em mãos...

_Não, não, é diferente. _ cortei-a e cheguei mais perto de seus olhos amarelados. _ Eu, como filho da diretora dessa escola, tenho que dar o exemplo de espírito comunitário.

_Ãnh... E?

_E queria eu mesmo levar o trabalho e fazer uma visita, se é que me entende.

_E comer a chapeuzinho disfarçado de vovozinha? Não me canse...

_Ela vai se sentir melhor. Quem aqui se propôs a isso? Quem saiu do seu próprio individualismo e pensou em ir lá visitá-la?

_Tudo bem. O trabalho eu já enviei, agora é só você pegar essa lábia toda, essa cara de pau e aparecer lá dizendo que vai ajudá-la a tirar as dúvidas. É só isso que posso fazer.

_Obrigado. Só mais uma coisinha, onde fica a casa dela?

_Não me pergunte isso. Sabe que eu não falaria... _ela escreveu no papel uns rabiscos e me deu. Beijei-lhe o rosto e sorri em agradecimento. _ Só pelo seu lado bonzinho cheio de segundas intenções.

_Como pode pensar isso de mim? _ ri e sai pela porta carregando a chave para a próxima fase de um jogo excitante.

Peguei o meu carro, atravessei a cidade e encontrei o endereço perto de uma zona arborizada. As câmeras captaram a minha presença e eu me identifiquei no fone próximo ao portão que se destravou. Uma empregada veio receber-me e pediu que entrasse.
_Aurora deve estar nos fundos fazendo aquelas coisas estranhas. Mas... vou dizer que é você, espere aqui. _pediu.

Coisas estranhas? Que tipo? A minha curiosidade falou mais forte e eu procurei segui-la alguns passos atrás. Nunca teria a chance de descobrir que tipos de coisas esquisitas seriam essas, se não bancasse o mal educado.

Foi quando me deparei com uma grande varanda envidraçada e uma garota socando um saco de areia vermelho como seu cabelo. Era realmente destoante, mas surpreendente a forma como surrava o saco com mãos e pés. Quem era aquela maluca?! Por que despejava sua raiva ali? Seu corpo era naturalmente perfeito, não tinha por que se esforçar.

_Eu não quero vê-lo porque deixou que entrasse? _ meus ouvidos captaram sua voz baixa.
_Desculpe, mas pensei que pudesse ser seu namo...

_Ficou maluca?! _gritou. _Nunca!

_Não precisa bater nela. _ eu apareci na porta da varanda e a mulher ficou desnorteada por ter permitido minha entrada. _Pode nos deixar. _ pedi e ela sumiu receosa por causa da bronca que acabara de tomar por imaginar que eu era bem vindo.

Aurora virou o rosto e se escondeu atrás do saco de areia.

_Eu não te convidei, como aparece na minha casa, poderia vir outra hora?_ sua voz invocada era a energia para implicar com ela.

_Não. _afastei o saco de areia e vi seu rosto, ainda com um curativo no supercílio. Meu coração feliz bateu aliviado por constatar que estava mais saudável que pensava, por mais que não houvesse motivo para ainda estar de curativo.

_Vá embora. _expulsou-me sem me convencer direito que queria isso.

_Não posso ir. Eu te fiz mal, te machuquei. Me disseram que estava doente. Mas, parece ser feita de ferro.

Ela soltou uma risada e seus olhos cintilaram.

_Tudo bem, mas meu pai não pode te ver aqui. _ olhou para os lados e a ponta dos seus dedos tocaram o meu abdômen enquanto se certificava sobre o território e depois olhou-me rapidamente, escolhendo tomar alguma atitude em relação a mim.

_O quê? Ele não é do tipo antiquado? _usei de toda a estupefação. _Isso é coisa das cavernas! Você não tem amigos?

_Não! _irritou-se. _Não entende... Você n-ã-o pode estar aqui! _perdeu a paciência de uma maneira que conseguiu me convencer de que estava com muito medo.

_Se eu não posso estar aqui, onde posso? Vamos sair daqui?!

_Está louco?_franziu a testa. Ela chutava um saco de areia e estava contestando minha sanidade?

_Se você não está salva na sua casa, vamos sair daqui! Onde?_pressionei.

_Por favor, por favor... _ implorou mais perto, testa franzida. _... Sai por aquela porta e não me faz perguntas._seu olhar me pedia lá dentro pra insistir só mais um pouco.

_Sem perguntas, eu saio por aquela porta, mas vem comigo. _segurei sua mão.

_Eu?_ recuou um passo atrás.

_Sem perguntas, prometo, estou de carro._puxei-a comigo.

Respirou fundo.

_Pra onde?

_O caminhar faz o caminho, vamos. _ tomei a frente e olhei pra trás. Aurora hesitou, mas logo seguiu-me.

Na sala, cruzamos com a empregada que recebeu o recado de que pra todos os efeitos ela tinha saído sozinha pra correr. Entramos no meu carro e só aí Aurora pareceu-me mais aliviada.

_Não entendo, parece que você estava com medo que nos matassem. _brinquei, mas ela não negou.

_Sem perguntas. _lembrou-me de suas regras.

_Mas, foi uma afirmação. _corrigi.

Ela sorriu um breve sorriso e colocou o cabelo atrás da orelha, deixando o curativo da cor da pele aparecer. Mas, cumpri o meu juramento de não questionar.

_O que estava fazendo correndo aquele dia? _ ela quis saber.

_O mesmo que você, correndo pra sei lá, espairecer a cabeça. _dei de ombro e parei o carro perto da trilha. _Quer andar?

Dei a volta no carro e notei suas pernas musculosas apertadas no short colado. O olhar nada discreto a enrubesceu. Caminhamos na trilha.

_Você é novo na cidade? _manteve o assunto.

_Sim, minha mãe queria uma vida mais calma longe da poluição da cidade. É meio bucólica.

_E está gostando? _ fez uma careta repentina de dor. Parei e perguntei se tinha algum problema._Não... só uma tensão muscular... _ pareceu concentrar-se, respirou fundo e encostou as mãos em uma árvore, esticou a perna para trás e alongou.

_Pegando pesado? Não precisa, você é perfeita.

_É sempre bom aperfeiçoar a natureza. _ sentou-se em um tronco e fiz o mesmo.

_Ela não está sendo tão boa com você. _ passei a ponta do dedo na sua testa, em torno do pequeno curativo, sendo muito difícil não perguntar.

_Está sim. Eu estou aqui... _ sorriu como se isso não fosse perfeitamente possível.

_Eu não vou poder perguntar nunca nada?

_Isso já é uma pergunta.

_O que eu posso então? _olhei direto para o centro do seu rosto.

_Fica quieto. _ pediu baixinho, olhou-me longamente e não parecia feliz. _ Doug, por que veio atrás de mim?

_Eu não tenho resposta.

_Nenhuma que seu superchip possa trazer?

_Ele ainda não está no meu coração, mas na minha cabeça.

_O que te falta? _questionou.

_Perguntas. _ sorri.

_Você precisa ter certezas pra gostar de mim? Como amiga.

_Não.

Aurora ergueu o rosto para a luz do fim de tarde, de olhos fechados, cabelo para trás.

_Primeiro eu quase te atropelei de carro, depois te atropelei com meu corpo naquela trombada, acho que eu tinha que atropelar o seu caminho.

_Como você que é quase um robô pode acreditar em destino? _ironizou.

_Eu já falei que meu coração ainda não é mecânico.

_Temos que ir, meu querido robô. _ brincou e soltou uma gargalhada que trouxe uma força inexplicável para o ar. _Eu... _apontou para o peito. _ Posso chegar antes que você lá no carro. _ começou a correr, deixando sua cabeleira de ondas de fogos pelo ar.

Corri também, sem o mesmo esforço, admirando seu rosto virando para trás sorridente. Quando chegou, levantou os braços para o alto em vitória, pulando e gritando.

_Você não é normal por tudo que já vi. _ abri a porta pra que entrasse. Mas, ela continuou lá brilhando, irradiando tanto vida que eu podia agarrá-la tão fácil, só que não me jogaria na vertigem daquele sentimento. Ela não era convencional. Depois, como boa menina, passou por mim e sentou-se.

_Doug. _ela disse antes de sair do carro, na frente da sua casa. _ Obrigada. Não precisa mais...

_Te pego amanhã. _atropelei suas palavras.

_Não, eu vou pra escola com meu pai.

_Eu disse que te pego pra corrermos. Sozinhos. Sem perguntas. O que teria de errado com isso?

_Nada. _ falou pra baixo, destravando a porta.


Segurei sua mão que escapava do banco e beijei na região do seu pulso, sentindo em meus lábios seu coração pulsando e umedeci ali minha marca.

Continua...

Um comentário:

Camila disse...

MARAVILHOSOOOOOOOO

Li, não demore por favor......se tivesse esse livro em mãos ja teria devorado todinhoooo....


Estou amando...
obrigada por contribuir sua estorias conosco....

bjoooos e até o proximo!!!!

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