12 de dez de 2010

Cap 5: Me leva pra onde eu possa gostar de você.

Minha mãe organizava junto com nossa empregada Alice as compras que o supermercado acabara de deixar com o carrinho em nossa porta. Era tão prático poder receber tudo em casa e não poluirmos o ambiente com sacolas plásticas. Eu mastigava meu pão integral e pensava sobre isso enquanto olhava nossa empregada, humana como eu, tratar-nos como superhumanos perfeitos e saudáveis. Ela não entendia muito porque eu me esforçava tanto para fazer exercícios. Dizia sempre que eu fazia coisas malucas em prol da beleza e que não podia ser escrava desse mundo. Eu não podia dizer-lhe que não fazendo isso terminaria enrugada e feia logo como ela.

Estar bonita e perfeita me permitia estudar em uma escola de superhumanos, só não me dava a liberdade para me apaixonar por um deles. Esse era um dos problemas dos quais meus pais não me arrumaram uma solução, mas já começavam a perceber que chegara a hora de lidar com isso. Minha vontade era não tocar no assunto, mas meu coração também queria solução para um assunto que não me importara até dois anos atrás.

_Reparou como Aurora está com cara de quem viu um passarinho, senhora? _ Alice piscou para minha mãe e as duas riram. Mas, vi no olhar da minha mãe para mim uma pitada de preocupação que só eu pude captar.

Levantei da mesa e fui para a varanda. Alice tinha bastante intimidade conosco por todos seus anos de trabalho e dedicação e logo captaria que dera o tiro certo. Sentei em minha esteira de meditação, alonguei o pescoço de um lado para o outro e, em posição de lótus, comecei a controlar minha respiração. Ninguém viria me perturbar enquanto eu estivesse ali de olhos fechados.

Meu pai sempre me ensinara a sabedoria milenar dos gregos sobre mente sã, corpo são. Porém, minha mente estava em conflito com meu coração e isso me trazia um aperto no peito. Eu não queria pensar nele, mas nem a ausência na escola por conta do machucado me ajudara a pelo menos esfumaçar sua visão da minha lembrança. Eu rezava, por pura fraqueza, pra que me esquecesse quando eu retornasse ou, ao pra o universo ser mais bondoso comigo, o mandasse embora dali pra bem longe, quando tudo que meu coração queria era mantê-lo perto!

Irritada por não meditar, levantei-me e coloquei minhas luvas emborrachadas. Comecei a chutar o saco de areia. Havia muita energia retida em mim e eu tinha que gastá-las.

_Você quer conversar? _minha mãe sentou-se na espreguiçadeira da varanda com seu fino computador na mão e foi ler sua revista de fofoca de artistas.

Continuei calada e chutando.

_Acho que já poderá voltar pra escola. Está tensa por causa disso? _ perguntou, tocando várias vezes com o dedo indicador e polegar na tela de led.

_Não, a cicatriz está quase boa, vou usar um penteado que cubra e sentar no fundo da sala... _respondi sem fôlego, entrecortadamente.

_Está ansiosa?

_Por quê? _ abracei o saco pra que parasse de balançar no ar e a olhei.

_Deve ter alguém esperando por você...

_Eu não tenho...

_Sabe que não pode mentir pra mim, eu te conheço, Aurora.

_Senhora, tem uma visita na porta. Não conheço. _ Alice anunciou. _Parece jovem...

Meu coração encostado no saco de areia pareceu querer socá-lo, pois bateu no peito com força e eu senti o suor esfriar. Não pode ser Douglas?! Nem sabe meu endereço!

_Hum... Interessante, vamos ver. _ Minha mãe acessou as câmeras de segurança na tela em sua mão e sorriu. _ Que gato! Uau. Aurora está escolhendo bem seu namorado! Deixa ele entrar... Eu vou lá para o quarto tomar um banho e não vou atrapalhar os pombinhos...

Era melhor não segurar o saco de areia pra não cair no chão. Minhas pernas estavam moles.

_Mãe, não... _sussurrei pra ela, de costas pra Alice. _ Ele é um superhumano... _ tentei fazer com que lesse meus lábios. Ela levantou a sobrancelha com um ar “e daí?”. Minha mãe estava querendo subverter as regras do meu pai? _ Não posso, ele vai descobrir...

Ela se aproximou de mim e falou ao meu ouvido:

_Querida, você vai viver menos, então, que viva o máximo que puder. E só o amor faz o tempo ter sentido. Ninguém precisa saber, se você souber fazer direito...

_Eu não quero me machucar...

_Não há como não se machucar, nem os superhumanos estão imunes a isso.

_Se meu pai souber, ele vai ficar muito bravo.

_Seu pai vai viver mais tempo que você pra superar isso. _ acariciou minha bochecha. _Alice, mande o namorado da Aurora entrar... _minha mãe falou alto e foi para seu quarto.

_Alice, não deixe ele entrar. _pedi.

_Alice, manda ele entrar! _minha mãe gritou do alto da escada.

_Não! _ainda implorei sem moral e me vi em pleno estado de nervos. Soquei o saco de areia várias vezes.

_Aurora, seu namorado está chegando....

_Eu não quero vê-lo, por que deixou que entrasse?

_Desculpe, mas pensei que pudesse ser seu namo... _ respondeu, levada pelas insinuações da minha mãe.

_Ficou maluca?! Nunca! _ franzi a testa. Queria poder lhe explicar o quanto era complexo ter que me esconder dos superhumanos me fazendo passar por um deles.

_Não precisa bater nela. _ a voz grave de Doug me estremeceu o coração. Alice olhou para ele preocupada por ter entrado até ali ao meu contragosto. _Pode nos deixar. _ ele pedi com seu ar de comando que me faria também seguir todas as suas ordens. Transmiti pelo olhar meu consentimento pra Alice, que saiu sem entender mais nada.

Dei um passo a frente, ficando o saco de areia entre nós e me dei conta de que o curativo estava em minha testa. Ele logo faria questionamentos sobre isso.

_Eu não te convidei. Como aparece na minha casa? Poderia vir outra hora?_ comentei seca pra desestimulá-lo.

_Não. _ele afastou o saco de areia e seus olhos se fixaram diretamente no meu supercílio. Já sabia as perguntas que deviam estar passando em sua cabeça e não queria ter que me esforçar para respondê-las.

_Vá embora. _pedi com cansaço.

_Não posso ir. Eu te fiz mal, te machuquei. _ explicou. Se soubesse que não fizeram nenhum mal ainda do que era capaz enquanto me achasse uma super humana. Eu conhecia muitas estórias ruins de garotas mortas e que sofreram violência quando tentaram bancar a esperta e dar o golpe. Caras como ele não iriam querer um tipo de gen como o meu para suas futuras gerações. _ Me disseram que estava doente. Mas, parece ser feita de ferro. _comentou.

Eu ri daquela visão míope. Não, eu era feita de gens fracos e não tinha nenhuma maquina dentro de mim me sustentando a longo prazo. Minhas células morriam e envelheciam a cada dia.

_Tudo bem. _ suspirei. Já que tinha me visto, precisava tirá-lo daqui. Era perto da hora do meu pai chegar. _ Meu pai não pode te ver aqui. _pensei um pouco.

_O quê? Ele não é do tipo antiquado? Isso é coisa das cavernas! Você não tem amigos?

_Não! Não entende... Você n-ã-o pode estar aqui!

_Se eu não posso estar aqui, onde posso? Vamos sair daqui?! _propôs e eu parei de respirar por alguns segundos realizando aquele pedido. Eu iria para um lugar bem longe da civilização pra poder ficar com ele. Mas, esse planeta ainda era impossível de chegar.

_Está louco?_chutei o saco de areia e tentei não demonstrar muita empolgação por tê-lo na varanda da minha casa, quando na verdade parecia que tinha sido trazido pela força dos meus pensamentos.

_Se você não está salva na sua casa, vamos sair daqui!

_Por favor, por favor... Sai por aquela porta e não me faz perguntas.

_Sem perguntas, eu saio por aquela porta, mas vem comigo. _segurou minha mão e estremeci, mordi meu lábio com a boca seca.

_Eu?

_Sem perguntas, prometo, estou de carro._puxei-me.

_Pra onde?

_O caminhar faz o caminho, vamos.

Aqueles olhos azuis me levariam pra dentro da armadilha e eu estava perdida pelo feitiço que se apoderava de mim. Sua mão quente apertando meus dedos me cortou o fio de sanidade que tentava se ligar ao meu coração.

Falei pra Alice que sairia pra correr. Eu não podia estar vivendo aquilo, era um sonho, mas eu estava na porta de casa, diante do carro do cara mais supergato da escola?

_Não entendo, parece que você estava com medo que nos matassem. _ele se divertia com fogo.

_Sem perguntas. _cortei-o, apertando os cintos.

_Mas, foi uma afirmação. _lembrou-me com aquele jeitinho doce que me quebrava. Sorri.

_O que estava fazendo correndo aquele dia? _ perguntei pra ouvir mais sua voz.

_O mesmo que você, correndo pra sei lá, espairecer a cabeça. _ falou e logo depois estávamos perto da trilha onde tivemos nosso primeiro encontro. _Quer andar?

Como poderia exigir mais que aquilo? Era um lugar vazio, calmo e distante. Ao mesmo tempo, temi que se descobrisse tudo, resolvesse me fazer algum mal onde ninguém ouviria meu pedido de socorro. Como eu me arriscava tanto?

Sai do carro, desenrolei a borda do meu short e o peguei já do meu lado me admirando. Senti minhas bochechas esquentarem.

_Você é novo na cidade? _tentei ficar dentro das obviedades.

_Sim, minha mãe queria uma vida mais calma longe da poluição da cidade. É meio bucólica. _ revelou, iniciando a caminhada.

_E está gostando? _ perguntei e senti uma fisgada na minha perna. Tentei andar mais um pouco e vi que não ia parar.

_Que houve?

_Não... só uma tensão muscular... _ respirei fundo e tentei alongar a perna.

_Pegando pesado? Não precisa, você é perfeita.

Virei o rosto para o lado, que estava entre os braços esticados e apoiados na árvore para que eu alongasse a perna.

_É sempre bom aperfeiçoar a natureza. _ disse-lhe tentando não parecer irônica e sentei-me em um tronco tombado.

_Ela não está sendo tão boa com você. _ encostou o dedo em minha têmpora e li todos os seus questionamentos angustiantes nos olhos que não paravam de ir para um lado e outro tentando captar qualquer expressão minha.

_Está sim. _ Como eu podia reclamar da minha natureza? Eu estava linda o suficiente para enganá-lo de superhumana e ter esse pequeno momento de normalidade. _ Eu estou aqui... _ sorri.

_Eu não vou poder perguntar nunca nada?

_Isso já é uma pergunta.

_O que eu posso então? _olhei direto para a minha boca.

_Fica quieto. _ pediu baixinho quando ameaçou o rosto para frente. _ Doug, por que veio atrás de mim?

_Eu não tenho resposta.

_Nenhuma que seu superchip possa trazer?

_Ele ainda não está no meu coração, mas na minha cabeça.

_O que te falta?

_Perguntas. _ sorriu com os dentes perfeitamente brancos.

_Você precisa ter certezas pra gostar de mim? Como amiga. _corrigi e estabeleci os limites.

_Não.

O céu estava lindo. Alaranjado e azul. Fechei os olhos e tombei o pescoço para trás.

_Primeiro eu quase te atropelei de carro, depois te atropelei com meu corpo naquela trombada, acho que eu tinha que atropelar o seu caminho.

_Como você que é quase um robô pode acreditar em destino?

_Eu já falei que meu coração ainda não é mecânico.

_Temos que ir, meu querido robô. _ ri _Eu... _apontei para mim. _ Posso chegar antes que você lá no carro. _ apontei e começou a correr.

Ele sorriu fazendo rugas nos cantos dos seus lindos olhos e correu atrás, sabia que podia fazer melhor, mas queria me deixar vencer.

_Você não é normal por tudo que já vi. _ disse quando abriu a porta pra que entrasse.

Eu fiquei parada no meio daquele campo verde e tive vontade de dar alguns passos, puxá-lo e beijar seus lábios pra sentir seu gosto. Mas, me resignei a só entrar no carro.

_Doug, obrigada. _ agradeci quando parou na frente da minha casa. Eu sabia que aquele dia de doces ilusões era uma exceção em minha vida._ Não precisa mais...

_Te pego amanhã. _cortou-me.

_Não, eu vou pra escola com meu pai.

_Eu disse que te pego pra corrermos. _ corrigiu. _ Sozinhos. Sem perguntas. O que teria de errado com isso?

Tudo. Tudo daria errado.

_Nada. _ destravei a porta.

Segurou minha mão e me beijou daquele jeito que fazia meu coração virar uma gelatina de morango.

Quando entrei, minha mãe veio correndo até mim. Senti um pânico. Meu pai estava bravo com algo?

_Eu disse que estava lá em cima no seu quarto estudando. Deixei a luz acesa. Corra pra lá que seu pai está no banheiro. Precisava ter demorado tanto!

Eu ri e corri na ponta dos pés descalços pela escada.

Meu celular tocou em cima da minha cama. Era uma mensagem da minha amiga dizendo que Doug pedira meu número. Depois, outra de Doug: “Cuide dessa perna.”

Eu tinha que cuidar do meu coração que não podia ser substituído por um mecânico menos burro.

Continua...

5 comentários:

Camila disse...

Li é perfeito....estou apaixonada por tudo isso, não pare de escrever ok?
bjos e obrigada!!!!

Li Mendi disse...

obrigada ca, pode deixar, não vou parar. beijo enorme lindinha da li.

Anônimo disse...

Ameiiiii ...
já li quase todos os seus romances!
são otimos!!!
numca pare de escrever, tá? eu e muitas pessoas prescisão dos seus romances!
bjus.
by: lay

Li Mendi disse...

Obrigada, Lay!
Fico muito feliz que esteja gostando.
Deixe sempre seus recadinhos, pois eles me ajudam muito.
Eli.

Aninha Barreto disse...

Muito interessante esse envolvimento deles!!! Mas algo vai balançar a harmonia deles não ?

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