19 de dez de 2010

Cap 7: Perdendendo ou ganhando.

Música tema do capítulo

O teto do meu quarto parecia uma tela por onde eu projetava várias cenas nunca filmadas pela memória, apenas criações solitárias. Foi uma manhã inteira inútil de sábado assim sobre a cama. Minha mãe apareceu na porta do quarto preocupada por eu não ter descido para o almoço.

_Precisa se alimentar, querida. _passou a mão na minha testa, afastando o cabelo do rosto. _Alguma coisa a ver com aquele belo par de olhos azuis?

Fechei as pálpebras e suspirei.

_Céus, muito pior do que eu pensava. Chega pra lá. _pediu e deitou no travesseiro que eu acabava de ceder.

Quem não soubesse nosso grau de parentesco poderia dizer que era uma irmã mais velha com um corpo incrível e uma vivacidade de garotinha. Deitadas sobre essa cama king, já resolvemos boa parte dos meus conflitos existenciais. Minha mãe sempre conseguia tornar mais emocionante o que meu pai me fazia acreditar ser perigoso.

_Em que ponto vocês estão agora? _perguntou como se eu estivesse em alguma parte de um livro de estórias para dormir.

_Estamos na parte em que ele dá em cima e eu fujo. Depois, me sinto uma grande fraca.

_Eu também ficaria com medo! Imagina ter um cara lindo e gostoso daquele na minha cola! _ abanou-se.

Virei o rosto franzido pra o lado e quase gritei “Manhê!”, mas ela pediu desculpas antes disso. Como conseguia fazer parecer que todo o dilema se resumia a popularidade de estar com o aluno mais incrível da escola quando o real problema era que eu nem podia estudar lá misturada a eles!

_Eu ouvi dizer que uma garota foi morta por tentar se passar por uma superhumana em outra escola. Bateram nela e fizeram outras coisas... _minha voz mostrava o quanto minha alma estava mortalmente preocupada.

_Pelo que já conhece dele, acha que te mataria? _ fez pouco caso. _Só se fosse de amor...

_Não entende? Quando decidiram me fazer passar por uma superhumana, me tiraram o direito de me apaixonar por um humano pra que não desconfiassem, nem por um superhumano pra que não me descobrissem. Eu sou um ser indefinido, híbrido...

_Querida... _pegou no meu rosto e aproximou o seu do meu. _ Você pode escolher o caminho que quiser, cada um terá as suas conseqüências. Ficar aqui trancada sem fazer escolhas é a pior escolha.

_Ele vem me buscar pra corrermos hoje. _anunciei.

_Então, já fez uma escolha. _sorriu, exultante com meu progresso.

_Desculpe por eu falar essas coisas, não quero que se sinta culpada de nenhuma forma. Eu agradeço por poder estudar na melhor escola e ter direito a uma super vida.

Meu celular começou a vibrar de baixo de alguma parte do edredom e das almofadas. Começamos a tatear a superfície fofa e macia da minha cama e rimos. A luz do aparelho nos ajudou a achá-lo.

_É ele. Os superhumanos já podem nos ouvir a quilômetros de distância? _ perguntei retoricamente e atendi, sentada sobre as minhas pernas. _Alô?

_Oi. _sua voz meio rouca me arrepiava até o cabelo da nuca. _ Eu queria saber se podíamos ir ao cinema. Tem um filme legal passando.

Cinema?! Mas, não era corrida? Isso muda completamente o roteiro! É como se eu tivesse me preparando para um casamento de dia e descobrisse no convite que era festa à noite de gala.

_Tudo bem. _tentei colocar simpatia na voz. _ Pode ser. _acho que me sai bem com o tom de pouco caso quando queria apertar seu pescoço.

_Estou no caminho da sua casa.

O quê? Já?

_ Eu posso esperar você se arrumar...

Qual é? Achava que eu não podia ser uma mulher prática? Olhei para o meu guarda-roupa enorme e pra fileira de sapatos na estante perto do banheiro e tive certeza de que ele começava a me conhecer muito bem.

_Não, tudo bem, eu me arrumo muito rápido. _segurei meu último pingo de orgulho. _Quando chegar, me espera no carro e me liga, ok?

_Ãnh, ok. Como preferir. _disse.

É o mínimo que pode fazer depois de me aprontar essa! Desliguei.

_Mudança de planos? _ minha mãe com a cabeça apoiada na mão, deitada de lado, me viu saltar pra fora da cama e abrir meu guarda-roupa.

_Ele teve a capacidade de me informar que está a caminho e quer ver “um ótimo filme que está passando”. _ carreguei de ironia. _ Agora, me diga como vou fazer uma mínima combinatória em vinte minutos, se é que ele não está chegando?! _meu mau humor e nervosismo extremo podia azedar tudo, então, ela se levantou em um ato de compaixão pela minha momentânea crise de estilo.

_Você quer um look “é hoje”, “vai com calma”, “não é o que você está pensando”...?

_Eu estava imaginando roupa e sapato, não algo mais complexo que isso!

_Querida, a roupa passa uma mensagem...

_Eu não tenho tempo de aula de moda contemporânea, o que devo usar? _puxei um cabide com força e botei na frente do seio.

_Totalmente promíscua. _torceu o nariz. _Ele disse cinema pornô?

_Esse vestido?

_ Você quer beijar na boca ou que ele te leve a um templo religioso? Quem te deixou comprar isso?!

_Eu ganhei. Arrggghhhh... _grunhi, sapateando no assoalho de madeira com meus pés descalços.

Meu pai passou pelo corredor, avisando que havia chegado do seu jogo e perguntou sem tom de que queria resposta sobre o que estávamos aprontando. Que bom, porque eu podia facilmente lhe dizer: “Estou querendo ficar linda para um superhumano”.

_Coloque esse vestido solto, tem um ótimo decote. _esticou o cabide. _ E joga um colete por cima. Valoriza seu corpo sem parecer “quero tudo logo no primeiro encontro”. Agora, o resto é com você porque vou ter que tirar seu pai de longe daqui pra poder sair com seu príncipe superhumano.

_Não acha que isso é totalmente loucura- insano-suicida? _perguntei, esperando de alguém como a minha mãe, um pingo de juízo pra me botar com os pés no chão.

_Insano é ficar na cama, linda como você é. Ele vai duvidar sempre de que você é super perfeita como é pra mim.

Sorri. Não diminuía meu nervosismo, mas levantava meu pobre e restrito ego humano. Quando eu terminara a maquiagem e fechara o rímel, o telefone vibrara na penteadeira, eletrizando meu coração que entrou quase em curto. Chegara.

Abri a porta com a certeza de que eu ia me meter em uma grande, muito grande enrascada e que estava adorando.

Doug estava com uma calça jeans perfeita que realçava a curva das suas pernas fortes e o rosto parecia mais lindo do que qualquer ator de cinema dos meus velhos pôsteres da porta do guarda-roupa.

_Oi. _sorri.

_Oi. Foi rápida mesmo. Já estava pensando em correr assim? _brincou e apesar de merecer uma resposta “eu procuro sempre correr de salto agulha pra fortalecer a batata da perna”, achei fofo e encarei como um elogio.

_Ah! Esse é meu look de terças e quartas pra correr. _segui seu bom humor pra quebrar o clima tenso de primeiro encontro.

Eu já estava imaginando um filminho de comédia ou de romance bem gostoso que desse a deixa pra pegar na sua mão, mas a notícia de que Doug não tinha preparado tudo tão perfeitamente assim, me trouxe um arrepio. Ele, como típico homem prático que nem parece ter um chip super potente em sua cabeça, comprou pelo horário. Mas, tarde demais descobriu por uma busca mental na internet que era sim o que eu temia, um filme de terror.

Entrei na sala de cinema com indisposição pra aquela sessão de tortura.

_Acalme-se, é tudo mentira, você vai achar até divertido. _riu do meu pânico quando as luzes se apagaram _Eu estou aqui. _abraçou-me carinhosamente por trás e, por três segundos achei que seria como a descrição nos livros de que o mundo parou de girar e que eu já não ouvia mais nada além da sua respiração... Mas, durou só os três segundos mesmo porque o filme começou com uma música pesada de suspense que me fez tremer. Dali pra o vexame público foi questão de chegar alguns minutos depois quando os espíritos deformados e assustadores começaram a andar entre nós e eu dei um grito de pavor.

Empurrei-o pra longe com tanta força que quase caiu. Corri para a saída, tateei a porta e sai para a luz forte e estourada do corredor encapetado de vermelho.

Passei a mão na testa suando frio e tentei me acalmar. Ao abrir os olhos encontrei o rosto preocupado de Doug que acabara de sair pela porta a minha procura. Dei as costas. Eu queria correr dali e nunca mais vê-lo, tamanha vergonha.

_Eu não sabia que ia levar tão a sério. _riu.

_Desculpe, eu tenho o péssimo defeito de levar as coisas a sério. _ aquilo soou como uma indireta e meu humor o fez engolir em seco. Droga, estava se esforçando pra ser fofo e eu estragara tudo! _Eu quero ir embora, pode ser? _ pedi, sem coragem de olhá-lo.

Chegando no meu quarto, enterrei o rosto no travesseiro e ouvi a porta abrir. Minha mãe ia querer detalhes e eu só gostaria esquecer que aquela noite patética tinha existido. Contei-lhe ainda com a voz abafada no travesseiro o resumo daquele encontro de terror e ela riu como o Doug.

_É um sinal. Só pode ser um sinal pra que eu não me meta nisso.

_Você até acabou acertando, sem saber o que estava fazendo. _garantiu e isso me fez desenterrar a cara do travesseiro, olhei-a, fazendo bico de raiva e frustração. _Você disse pra ele com bastante indiferença “Vamos embora agora?”.

_Em qual a parte eu faço um ponto nisso?

_Bom, você pode tê-lo deixado ficar com mais vontade de te conquistar, afinal, nada que é fácil é tão emocionante...

_Mãe, você está falando da pessoa certa? Ele é tipo o cara mais divino, lindo, incrível, perfeito, super, ultra, mega, extra galáctico Doug e eu acabei com a nossa noite.

_É só uma questão de aprender a ficar no controle. Você consegue. _ piscou o olho.

A sua teoria não pareceu tão válida assim quando eu cruzei o portão da escola e dei de cara com uma garota loira pendurada sobre os ombros de Doug lhe dando um beijo que eu devia ter tido a mínima capacidade de roubar ontem.

Meu coração pareceu freiar e eu estanquei naquele ponto, vendo-o segurar sua cintura. Eu quero vomitar! Entrei a passos firmes e desapareci pelo corredor cheio de alunos.



Continua...

4 comentários:

Anônimo disse...

continuação, continuação ...
anciosa pra continuação!!!

Lívia Costa disse...

adorei Li...
curiosa pro próximo cap...

bjos
lívia

Camila disse...

Filho da mããããe........

ai Li, não vai isso com Aurora, nem com a gente né? afinal sofremos e alegramos junto com ela
rsrs

bjos e o proximo jááááá
kkkkkkkkkkkkk

Li Mendi disse...

Fico tããão feliz de saber que estão gostando. Me empolgo pra escrever mais. Vou atualizar ainda hoje.

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