9 de jun de 2011

Cap 14: Quem é o dono da jogada? (Doug)

- “Doug, vou ganhar uma viagem fabulosa de férias! _ A voz de Gisele parecia de uma trabalhadora árdua que esperava suas férias com um fundo de hino de Aleluia. Na verdade, minha irmã se vangloriava de ter o duro trabalho de colocar emoção na minha vida. _ Já estou até me vendo num resort do Caribe tomando drinques na piscina.”

Enquanto eu estava a caminho de casa de táxi por conta de Gisele ter pego meu carro sem minha autorização, ela vinha zumbindo na minha cabeça através da nossa comunicação por chip aquele papinho de férias garantida. _ “Você está no topten. Todos só falam de você agora.” _anunciou como se abrisse o envelope do Oscar emocionada e esperasse de mim um belo discurso de agradecimento no palco. _“Os nossos seguidores estão adorando sua estória.” _ vangloriou-se. Porém, eu podia calcular que Aurora estava sendo usada na sua estratégia de barganhar as férias, sem se importar com a possibilidade de machucar os sentimentos da garota, que não devia sonhar que milhares de pessoas acompanhavam agora seu encontro entre amigas na minha casa.

Nossa família foi convidada a entrar no clã Alfa de pessoas bonitas, ricas e influentes com uma sonhada vida patrocinada por marcas que nos fazem experimentadores de todos os objetos de desejos que saem da fabulosa indústria do luxo. Somos verdadeiros cabides e vitrines ambulantes. Você pode estar achando uma vida triste e infeliz. Mas, Gisele e eu não somos do tipo revoltados com o destino que nossos pais escolheram para nós. Pelo contrário, até agradecemos muito pela educação com até certa liberdade e privacidade que nos deram. Nossos desejos foram levados em consideração mais do que muitos Alfas que conhecemos. Claro que, no início foi difícil perceber isso.

Como todo bom superhumano, aprendemos desde os cinco anos a usar nossos chips pra nos comunicarmos com a velocidade que a nuvem de informação da internet nos permitia. Achávamos que éramos sortudos por ter todos os lançamentos de brinquedos, roupas, sapatos e eletrônicos e creditávamos apenas à aparente riqueza de nossos pais que faziam tudo parecer presentes diários. Eles tinham a habilidade de colorir o mundo com um filtro de fantasia e ilusão de pureza.

Assim que a adolescência chegou, julgaram já estarmos grandinhos pra entender a revelação quer fariam. “Sabe o carro esporte que temos, aqueles eletromésticos que trituram até madeira na cozinha e aquele colar de brilhantes? Não foram comprados por nós, mas trazidos por algumas empresas para nos emprestar. (Eles ainda usavam palavras doces “emprestar” pra atenuar o golpe que não podia prever a reação.) Na cabeça de Gisele que pude ler, só havia uma questão: “vamos parar de ter tudo isso?” Era como se o mundo se tornasse muito pior sem suas roupas, bolsas e maquiagens de marca. Minha mãe sorriu: “não querida, pode ter até mais.” Eu estava certo que Gisele aceitaria matar, se minha mãe dissesse que “basta agora sair por aí matando uns humanos fracos que ganhará em dobro todo o luxo que já tem.” Mas, a regra era estranhamente mais fácil (aparentemente e vão entender por que). Só tínhamos que seguir a vida como sempre fora, usando tudo que chegasse para nós.

Gisele e eu achamos muito suspense para a conclusão ser “siga sua vida e saiba que o que usa foi um presente de alguém”. Franzimos a testa desconfiados. Meu pai fez um sinal de olhar pra que minha mãe parasse de esconder todo o jogo. Eu sabia que existia um preço muito alto que estava prestes a ser colocado na mesa. “Acho justo que saibam que não estão sozinhos” , ela começou a explicar e Gisele abriu a boca e depois de alguns segundos sem falar, ficou penalizada pela falta de exclusivismo, “há outros de nós? “, quis saber. “Sim, meu anjo, eles tem a tarefa de divulgar as empresas assim como nós temos esse trabalho. “ (trabalho? toda minha vida fora um trabalho?). “Mas, nossa importância não está apenas em ser a demonstração viva dos produtos. Nós fomos eleitos para participar de um reality show dos Alfas.”

Reality Show? Estávamos em um programa de TV? As pessoas nos assistiam o tempo inteiro? O mais rápido apreensão do significado disso me trouxe de imediato náusea e calafrios. De quantos milhares de pares de olhos estamos falando? Eu seria visto fazendo xixi no banheiro ou dormindo com uma namorada por todos os amigos da escola? A corrente de pensamentos meus e de Gisele cruzados preocuparam nossos pais que se levantaram do sofá e sentaram ao nosso lado na outra poltrona de oito lugares. “Não funciona assim! Não na nossa família. Não podemos negar. Há sim alguns Alfas que não fazem qualquer censura e abrem 100% da sua vida para outros observadores. Mas, no nosso caso, só mostramos para as pessoas que querem nos acompanhar aquilo que desejamos. Basta dar acesso aos seus chips pra que elas vejam através dos seus olhos. Você pode falar de coisas legais, passar bons ensinamentos, trazer exemplos saudáveis.”

Eu ainda sim queria ficar no meu quarto trancado sozinho, sem ninguém me vendo por dentro da minha cabeça. A escolha existia, mas era tão esmagadora que parecia impossível: se pedíssemos total privacidade, deixaríamos de ser Alfas. Eu não tinha direito de privar toda a família. Havia a chance de mostrar só o que eu quisesse, certo? Era só essa minha tarefa?

_Vocês conhecerão várias pessoas que irão lhe dar sempre conselhos. _minha mãe tentou dessa vez forçar a barra. O que ela chamava de sugestões eram ordens de comando. _É divertido, vocês estão participando de uma espécie de jogo. Existem muitas pessoas do outro lado que vão aconselhar vocês a fazer certas coisas. O livre arbítrio de escolher ou não seguir com a sugestão é de vocês. Não perdem o comando. Agora, se aceitarem, todos saem ganhando. Vocês vão ter mais presentes e os jogadores ao acumular pontos também são bonificados pelas marcas.

Eu tinha que agora entender que nossas vidas eram um game em que eu entrava na fase 1.

_Como vou conhecer essas milhares de pessoas?_Gisele questionou, preocupada com espectro de popularidade.

_Ter um Alfa é coisa pra gente muito, muito rica e poderosa. Assistir já é para um segundo nível de pessoas que podem pagar pelo acesso a esse “filme contínuo”. Só poucos podem interferir e enviar mensagens de direcionamento pra nós Alfa. São pessoas selecionadas pelas marcas.

Era um pouco apreensivo para um adolescente que já tentava administrar ordens de dois pais, acompanhar os pedidos de algumas dezenas de ricos com um hobby estranho de jogar com a vida de pessoas de verdade.

A adaptação a essa realidade foi mais divertida e natural para Gisele. Talvez porque o efeito colateral mais difícil para ela fora o excesso de popularidade por ser sempre in e deixar suas jogadores patricinhas felizes no tabuleiro de jogo. Mas, nossos amigos da vida real não sabiam que éramos Alfas e que havia pessoas nos assistindo por meio das imagens de nossos chips que liberávamos acesso de vez em quando. Isso fazia com que não se afastassem de nós. Poucos eram aqueles que tinham dinheiro pra se interessar por esse tipo de jogo.

Da minha parte, levei tudo com proveito até o fim do ano passado, quando me apaixonei por uma Alfa sem saber. Era muita coincidência, mas nossas marcas rivais ganharam bastante com isso e nossos jogadores se divertiram enquanto nos manipulavam um contra o outro sem sabermos, até nos levar ao maior índice de destaque no portal do reality. Foi assim que descobri que ela estava com outros caras ao mesmo tempo em que parecia curtir nossas saídas. Foi uma fase crítica da minha família, onde pensei em abandoná-los. Mas, nossos jogadores nos aconselharam ir para uma cidade menor, onde podíamos viver uma vida mais tranqüila. Agora que já tinham recebido seus presentes e, eu, minha caminhonete nova, consideravam que podíamos passar para a próxima fase do jogo. Meu coração porém, não era uma máquina que podia sofrer um reset. A garota Alfa sumiu e eu peguei o carro e a mudança e segui com minha família pra longe. Não sozinho, nossos jogadores nos acompanhavam sempre de algum lugar do panótipo virtual.

Eu não queria que Aurora virasse um tema de discussão dos jogadores e que Gisele se divertisse editando nossa estória com cortes e colagens de cenas como se montasse ao seu bel prazer nosso enredo. Ela sabia como ninguém chamar atenção para os maiores lances. Os seus níveis de recompensa já estavam tão altos quanto uma viagem em grande estilo no Caribe. Acessei direto a mente de Gisele pra acompanhar o que aprontava. O campo estava aberto para mim, sinal de que todos os jogadores podiam ver o que se passava diante dos olhos da minha irmã.

Acompanhei Aurora encolhida no banco do meu carro, saindo da escola com Gisele. Ela era muito magra, meu banco muito grande ou estava mais encolhida que o normal por retração diante do convite incomum? Gi esboçou não saber o que fazer direito com o volante e duvidei se não fora isso que a deixara Aurora tão recolhida e apreensiva. Mas, logo um jogador lançou a frase no chip de Gisele pra ajudá-la a fazer o óbvio: ligar o GPS pra pilotar automaticamente. Outros deles comentaram que tinha que ser uma loira burra mesmo. Nem todos eram bonzinhos.

_Seu irmão pediu pra me trazer? _Aurora quis saber e eu quase agradeci a Gisele por ter dado um empurrão tão ousado quanto este. A garota, contudo, estava com a respiração mais alterada que o normal e a sua pele parecia suar pelo que dava pra perceber com minha supervisão. Não confiava na minha irmã, que não parecia ajudar com tanta simpatia e falsa hospitalidade. Chegou a ser ridícula quando a convidou pra tomar banho em nossa piscina, por mais que eu adorasse a possibilidade de ver o palito de fósforo mergulhar na água. Apagaria todo o seu fogo? A menina parecia só pensar em mim, nem que fosse pra tirá-la daquela, pois comentou alto: “Essa hora o seu irmão já deve ter acabado a aula, deve estar vindo pra cá, acredito.”

Minha irmã e suas jogadoras invisíveis achavam que roupas eram como comida para famintos, podia conseguir qualquer coisa com elas. O efeito fora imediato aos olhos de Aurora. A menina era bonita o suficiente pra qualquer roupa, mas não parecia ter dinheiro para ser uma top como Gisele. Eu não queria que aquele velho costume dos Alfas de se aparecerem como leões imperiais a constrangesse. Porém, Gisele mostrou-se atenciosa como não era com todas as suas discípulas seguidoras. Estendeu uma roupa na frente de Aurora, naturalmente escolhida por suas jogadoras que queriam se entreter com a cena. Cada uma escolheu uma peça e eu não estava preocupado na composição e sim em ver Aurora sem nenhuma delas.

Abri um canal de comunicação particular com Gisele e disse-lhe pra fechar o acesso dos jogadores ao corpo de Aurora, pois não merecia ser exposta assim. Ela respondeu: “quer ter a exclusividade e deixá-los furiosos? Você não vai acabar com as minhas férias!”, irritou-se.

A imagem de Aurora na saia de pregas e na blusa preta com uma renda me fez esquecer por um momento os jogadores, as mensagens frenéticas que os espectadores enviavam, o ibope subindo. Eram apenas letras, frases, em um pano de fundo atrás do belo quadro que me irmã me permitia ver por seus olhos. Aurora não devia sonhar que tínhamos esse poder, senão, estaria preocupada. Mais não era só eu que estava em adoração, todos aquele marmanjos e garotas riquinhas sem ter o que fazer também curtiam a situação. Ordenei pela última vez pra que Gisele fechasse o seu campo visual. Foi nesse momento, que Gisele revelou o que nunca falávamos a ninguém, que éramos Alfa. Gritei em sua mente que era louca. Mas, ela retornou de volta que sabia ser honesta com as pessoas. Eu ri irônico e perguntei por que não contava a história completa sobre a nossa vida telepaticamente transmitida e jogada.

_Seu irmão é um garoto Alfa? _Aurora questionou e eu também fiquei interessado na sua reação à resposta positiva de Gisele. Um dia até pensaria me lhe revelar, mas Gisele já me suprimira a possibilidade de decepcioná-la com alguma mentira e explicou todo o significado do que era ser Alfa.

Quando toquei na maçaneta da porta, Gisele tirou o time de campo e correu para o banheiro, entregando para mim a presa, inofensiva, caminhando a passos quase suaves de bailarina. Gisele enviou um pensamento privado de que desejava que eu fosse feliz, depois daquela decepção horrível com a garota Alfa, mas que não tirasse suas férias paradisíacas. O paraíso, porém, já estava vindo a minha frente na escada. Gisele lançou a pergunta aos jogadores sobre que música poderia ser o fundo daquela cena e eles rapidamente escolheram. Gi colocou, então, a canção nas caixas de som de nossa casa, o que chamou atenção de Aurora, tão absorta com a procura pelos alto falantes que quase caiu da escada, mas segurava com uma pressão excessiva o corrimão dourado.

Suas pernas pareciam maiores olhando de baixo, seu queixo mais arrebitado e seu cabelo ainda maior e mais vermelho. Tudo naquela garota vermelha era fogo incandescente. Seus olhos verdes brilharam quando me viram e o jogo da vida deu uma pausa para mim, pois esqueci de tudo e subi rapidamente nos degraus para chegar até ela.

_Vocês dois combinaram alguma coisa? _ ela perguntou. Eu quis dizer “eu, nada. Eles, quase tudo” . _Acha que posso ser o coelhinho de estimação de vocês?

_Não sei o que está falando..._ tentei fazer parecer com que entendera tudo errado. Mas, eu tinha que confessar que estava certa por não termos o direito de colocá-la naquele jogo. Deveríamos afastá-la de nós. _ Você está...

_Ridícula! _bradou e percebi que considerava a roupa ingenuamente seu maior problema.

Muitos jogadores começaram a me dar ordens: “beija ela”, “está esperando o quê? Pega ela”, “Puxa agora”... As frases em seqüência tinham o poder de me controlar quando eu estava emocionalmente mexido. Puxei-a pra mim e pude ouvir a sua respiração, sentir na pele do meu ombro por meio da minha supersensibilidade a direção do seu hálito quente.

_Fique longe de mim. _Aurora deu-me as costas e subiu as escadas. Senti-me um monstro, mas, mesmo triste, acompanhei sua chegada no quarto através dos olhos da minha irmã que tentou persuadi-la sobre não ter sentido desconfiar de mim. Mas, alguma coisa naquela casa parecia normal? Tudo dava sinais pra Aurora que era melhor que fosse embora.

Agora com tristeza pedi pela última vez que Gisele fechasse seu campo visual e ela atendeu, para a vaia geral dos jogadores irados. Apenas me enviou privadamente a imagem de Aurora retirando a roupa com furor, enquanto eu estava encolhido em um canto da sala no andar de baixo. Não falou nada, ficou em silêncio, dando-me a chance de admirá-la.

Vimos algumas cicatrizes em suas costas e continuamos sem compartilhar nossas indagações por um tempo. Até que Gisele pareceu confusa sobre sua certeza de que Aurora era humana. Pode ser das cirurgias de mutação? Não podiam ter feito uma plástica?

Se ela for humana, você vai usar disso pra entreter os jogadores? Eu perguntei, mas ela não respondeu e Aurora passou pela escada correndo, deixando seu rastro no ar. Meu coração apertou.

7 comentários:

Anônimo disse...

Li, mais um capítulo emocionante! as suas quase 3h e frente ao computador valeu a pena. garanto. Ótimas inspirações.

Verônica Medeiros

Brina disse...

Uau....Li foi d mais esse capítulo....adorei...o problema é q sempre fica o gostinho de quero mais.......!!
Valeu a pena esperar a sua volta! Vc é excelente!!
Bjs

Isabella Borges disse...

aaaaaaaaaaaaaaaaah!!!
Essa historia taa de mais!

muuito booa!!
Esse Doug me mata do coraçao a cada capitulo!!

valeeu por mais um capitulo!

beeeijos

Gabi disse...

Nossa Li!!!


Muuuuuuito bom!

Só quero ver o que a aurora vai fazer quando ela descobrir!!!

Beijos!!!

Camila disse...

MEU DEUS!!!!!

Li o q foi isso???

adorei muito msmo!!!!

não sei se adoro ou odeio o Doug!!!

Jeus, adorei


parabens

Li Mendi disse...

Fico muito feliz que tenham curtido. Amando escrever essa estória.

Vc tem alguma dica de coisas futuras que podem acontecer e que posso colocar no livro?

Bjs Eli.

Aninha Barreto disse...

nossa.....tremenda sacanagem eim!!! o que vai acontecer com essa menina ???

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