14 de jun de 2011

Cap 15: Alguém tem que pagar as contas de casa. (Doug)

Desci os degraus da arquibancada do ginásio coberto da escola, fazendo o mínimo de barulho possível. Já eram 8 horas da noite e não havia mais nenhum aluno. Quase nenhum. Logo meus olhos encontraram o que vieram procurando por todos os corredores. Já fazia dois dias que eu lia os pensamentos dos outros na escola falando sobre o novo lance entre mim e Aurora e ela mesma fazia que nem me conhecia ou me permitia tirar alguma pista do seu rosto. A atualização das redes sociais da minha irmã andava informando mais sobre nós dois do que as suas novas coleções de roupa. Não importava o assunto com quanto que desse ibope, Gisele faria bem seu trabalho de paparazzi. E a fofoca era o cimento social naquela escola. Coisa que Aurora parecia ignorar.

Eu ficara esperando minha mãe sair da diretoria para dar uma carona de volta pra casa, mas no fim viu que realmente precisava ficar mais e eu saíra de sua sala um pouco irritado. Por que não percebera isso antes? Esse bolo ao mesmo tempo veio com uma grata surpresa.

Vi uma mensagem de uma amiga na minha página pessoal que dizia “treino acabou, agora só ficou Aurora tentando dar o triplo de si. Tchau, não quero tanto ser vencedora, vou pra casa.” Eu tinha criado filtros pra que tudo escrito sobre o nome de Aurora chegasse rapidamente a mim. Então, se estava treinando só podia estar no ginásio. Andei até o fim do corredor de madeira e abri vagarosamente o portão de ferro vermelho.

O lugar era uma obra olímpica para uma simples escola do interior. Havia quatro blocos de divisões da arquibancada com mais de cem degraus, descendo em cascata até a quadra polivalente. A luz era baixa naquele horário, apenas o canto superior direito estava com um refletor ligado na direção da minha procurada. Ali, ficavam os aparelhos de exercício físico feito para aquecimento. Alguns colchonetes azuis e barras de ginástica olímpica sujos do pó branco de magnésio indicavam que houvera um treino ali pela tarde. Mas, só sobrara a garota de fogo.

Não sei por que Aurora preferia a sombra, o silêncio e a solidão, mas independente do seu motivo, eu respeitei seu retiro e me mantive também no outro extremo. Minha visão era suficientemente poderosa que podia a muitos metros de distância enxergar seus cílios e ouvir sua respiração mais ofegante. Se ela tivesse um chip como o meu certamente já teria dado por minha presença. Nem por isso se tornava menos desafiadora.

Eu não sei o que buscava, mas Aurora estava já fazia 20 minutos desde que eu chegara subindo e descendo pesadas barras de ferro que contorciam seus músculos em curvas firmes e definidas. Pra que precisava de tanta força física com exercícios de repetição? Era alguma técnica milenar que os antigos humanos faziam pra se manterem mais jovens por algum pouco tempo? Havia remédios e mutações pra isso. Mas, sua obstinação me intrigava. Se antes eu tinha muita pressa pra que minha mãe acelerasse para ir embora, agora eu queria ficar ali quieto, sem vontade de ir pra casa.

No jantar de ontem, discutimos por conta da visita de Aurora a nossa casa, que viera a tona. Enquanto eu tentava comer a salada de macarrão, meu pai elogiou minha performance entre os Alfas. Imediatamente meus olhos cruzaram com os de Gisele que parou por alguns segundos com o garfo apontado para a boca, mas disfarçou e comeu o pedaço de carne. Minha mãe espetou com força de mais seu legume, fazendo um ruído metálico na louça.

_Vocês querem que aconteça de novo o que houve da última vez?_ olhou primeiro pra Gisele e depois pra mim, como se compartilhássemos a culpa de uma travessura. _Nós já sabemos que todos só falam do seu novo caso, Doug.

_Meu? Não há nada! _fiz pouco caso e peguei a taça de vinho.

_Querida, nós precisamos, já conversamos sobre isso... _ a mão de meu pai sobre a da minha mãe tinha o poder de calá-la, mas não de impedir seu leve tremor. _Será bom pra toda a família, é só eles... se controlarem mais dessa vez..._ voltou a divisão de responsabilidades para nós e foi a vez de Gisele e eu não termos tanta segurança assim para devolver-lhe.

Eu pude ler a mente da minha mãe que se abriu exclusivamente para mim: “seu pai está com muita dívida pra pagar, se descontrolou um pouco e agora a marca de carro ofereceu quitar tudo se você conseguir levar a garota na sua caminhonete mais uma vez. Os jogadores querem vê-la e as garotas querem saber como vocês vão ficar juntos. Eu não sei que pó mágico jogaram sobre você, mas atrai os dois públicos. Eu não quero que se sinta obrigado a mostrar nada pra eles, se...”

Gisele e meu pai perceberam pelo olhar fixo entre mamãe e eu que estávamos nos comunicando descaradamente excluindo-os da conversa.

“Ok, eu posso fazer isso. O que tem demais levá-la de carro algum dia se isso resolve o problema financeiro de vocês?”, aceitei mais pela boa desculpa que pelo meu pai. Mas, não fora pra manter esse trato com meu pai e o contrato com a marca de carro que eu estava ali sentado no ginásio quieto. Era puramente por mim, apesar de todos os que acessavam por meus olhos a mesma cena. Ocultei suas vozes e mensagens pra que me sentisse mais autônomo.

Aurora estava em um ângulo que a placa da base do leg press me impediam de vê-la deitada no equipamento. Ainda sim podia ouvi-la inspirar e soltar o ar fundo quando seus joelhos se flexionavam enquanto os quadríceps tocavam seu tórax. Talvez o cansaço ou um descuido fez com que a trava de segurança se soltasse e a placa desceu sobre Aurora, impedindo que pudesse se soltar do aparelho. Meus ouvidos potentes ouviram seu grito quando eu já tinha pulado três degraus e descia correndo com o coração acelerado. Saltei na quadra e meu tênis já anunciou minha chegada enquanto atravessava toda a quadra a passos apressados.

_Calma, vou te soltar. _disse-lhe.

_O que..._tentou respirar._faz aqui?

Em vez de lhe dar essa resposta, expliquei que tiraria os pesos do aparelho um a um pra que pudesse esticar a placa e controlar a trava de segurança novamente pra escapar do aparelho. Aceitou em silêncio e, mesmo livre, permaneceu deitada, agora com as pernas esticadas, relaxada, olhando daquele ângulo de baixo diretamente pra mim. Seu cabelo ruivo pendia para um lado, preso em um rabo de cavalo.

Ofereci-lhe a mão e seus dois grandes olhos verdes primeiro analisaram minha mão na sua direção e depois ficaram admirando a sua própria mão aceitar a minha, como se tivesse ido sozinha contra suas ordens. Estava fria pelo recente contato com o metal ou era a sua frieza corporal? A temperatura caia e ela ainda estava com um colan preto e uma calça enrolada na cintura, apenas com os pés aquecidos por um tênis cinza e lilás.

Depois, dei-lhe um impulso pra que se levantasse, o que exigiu uma força que puxou de mim, mas não subiu muito acima da nossa já inegável diferença de altura.

_O que faz aqui sozinha?_ perguntei.

_Eu acho que fui a última a fazer essa pergunta. _ Aurora caminhou até o pote de pó branco e ficou de costas para mim. _Está há muito tempo ali sentado me vendo?

Como ela sabia? Será que a cena do leg press fora proposital e eu caíra como um pato? Nunca desvendaria, mas confesso que aceitaria o papel de tolo para ter um motivo que encurtasse tantos metros de distância. A desculpa não precisa ser nobre quando o fim era um desejo latente.

_Está querendo treinar mais que as outras?_ lembrei do comentário da minha amiga, mas ela pareceu achar uma graça debochada. Voltou a formar uma linha reta nos lábios, deixando apenas por alguns segundos aquela meia lua de ironia. Brincou pensativa com o pó entre os dedos, passou por mim e pareceu se contentar com a pergunta, como se eu não tivesse dado o tom certo de que queria que respondesse. Deu de ombros.

Ela caminhou entre o cavalo com alças, as argolas, as barras paralelas, a fixa e assimétricas, a trave olímpica e pensei por um segundo que estava brincando de se achar no labirinto, ou ela achava que o aparelho a escolheria? Ficou olhando para as próprias mãos e como por uma decisão repentina (ou predestinada que eu não tenha captado).

Sua empunhadura era tão forte agarrando-se à barra que eu podia entender porque tanto exercício, mesmo assim não explicava a escolha dessa forma tão dura e antiga pra si mesma que por outros métodos.

Eu estava mais concentrado em suas pernas carpadas, formando com suas coxas torneadas um ângulo com o tronco. Seu corpo brincava no ar em um pêndulo delicado e perfeito. Aquela exposição era só um treino alheio a mim, ou, pelo contrário, era exclusivo? Aurora largou a barra por alguns segundos, passando de costas por cima dela de pernas abertas o que me fez imaginar que cairia. Senti a minha mão suar com a idéia. Mas, antes que eu pudesse ver seu tombo, graciosamente pegou a barra novamente e fez outro giro. Imaginei que duraria mais tempo, só que Aurora chegara ao limite do cansaço e caíra com pouco de desequilíbrio em um salto nada gracioso à frente.

Ela deitou sobre o colchonete e fechou os olhos, parecendo dormir. Eu fiquei ali ainda mais sem saber o que dizer ou fazer. Era um convite para ir embora, apontando que eu a estava desconcentrando? Ainda bem que logo falou:

_A culpa é a falta de música... _ falou baixinho. Ela procurava uma desculpa?

Então, que as máquinas falassem. Meu chip se comunicou com o equipamento de som. O sistema tinha um esquema tão fraco de segurança que não foi difícil fazer uma rádio começar a tocar nos alto falantes. (ouvir>>) Aurora não só abriu os olhos como enrugou a testa e levantou a cabeça procurando o dono da travessura. Mas, dois segundos depois pode descobrir que era obra minha e finalmente fixou seus olhos verdes em mim.

Ela sentou-se graciosamente, com as pernas flexionadas para um só lado. Não pude conter e com a força do pensamento liguei um dos holofotes que estouraram sobre ela, iluminando toda sua beleza. Meu corpo como eclipse impediu de ofuscar seus olhos.

_Melhor não ter tanta luz..._ disse-me rouca.

Melhor não ter tanta luz quer dizer que...?

Atrapalhadamente pela a ansiedade acabei desligando tudo, permanecendo apenas os fachos que vinham pelos buracos dos tijolos abaixo do teto de aço. Ficamos só com a música de fundo tocando. Sentei ao seu lado.

Não estava agüentando mais segurar. Queria beijá-la agora. Não havia nada demais em beijar a boca de alguém, mas em Aurora isso parecia representar os beijos românticos do início do antigo milênio anterior aos superhumanos. Talvez porque eu esperasse dela uma aceitação que não tinha mais paciência de esperar chegar.

Estendi o braço e toquei sua bochecha, aprofundando a mão por seu cabelo vermelho. Não foi toda a minha força que trouxe sua cabeça pra mim, foi seu sim também. Abri um sorriso que talvez ela não viu. Meu cérebro era todo dopamina e eu nem tinha injetado nada. Aurora tinha o poder natural de me deixar salivar por satisfação.

Eu podia fechar agora meu campo visual, mas isso pagava as contas de casa e não era difícil esquecer os outros quando eu me concentrava em sua boca vermelha e úmida tão perto. Aurora ajoelhou-se na minha frente e suas mãos demoraram a decidir, mas tocaram o cabelo da minha nuca, massageando-a. Era uma técnica pra me relaxar.

_O que está acontecendo aqui? _pensei ter ouvido a pergunta de Aurora, mas seus lábios não se mexeram e eu ainda não tinha o poder de trocar pensamentos com ela. Então, de quem...? Minha mãe ainda na escola! Olhei para o portão e vi o pequeno corpo à distância.

Por favor, pode ir na frente de táxi que vou levar Aurora de carro! Lembra sobre o contrato? Acabei a encontrando. Pedi mentalmente e ela aceitou.

Nesses poucos segundos em que pareci pensar demais, Aurora levantou-se e foi buscar sua mochila. Eu tinha parecido desistir? Que idiota! Eu podia consertar:

_Posso te levar em casa?_ saiu mais como pedido que como uma afirmação. _Estou de carro novo.

_E daí seu carro novo?! Agora dá pra acender a luz que eu preciso sair?

A marca não ia gostar nada de seu comentário e eu quase ri. Ela ficara irritada por eu não ter lhe dado o beijo que começara com as promessas dos meus gestos?

_Você não vai pensar nisso quando chegar em casa super rápido e bem... aquecida, está frio lá fora. _caminhei ao seu lado. Não fora bem esse o pedido de propaganda que eu recebera. Falar do aquecedor?! Eles cobrariam todo o dinheiro de volta.

_Qual é, Doug? _ela parou.

Eu quase falei uma frase sobre os atributos do motor, mas ela não entenderia nada. Neste momento queria saber minha intenção e eu estava preocupado em pagar uma conta.

_A minha?_senti que puxara o fio que explode a granada.

(continua...)

5 comentários:

Li Mendi disse...

O que será que Doug vai fazer ãnh???

Anônimo disse...

bem, não sei, mas deverá ser algo que, com certeza, terá um grande impacto na história desses dois. Mais outro gostinho de Aurora foi delicioso até por demais da conta Li!

Verônica

Gabi disse...

Eu espero que o doug descubra logo que ela é humana, quero ver a reação dele, saber se ele vai compartilhar isso ou vai desistir de ser alfa pela aurora.

Brina disse...

Ai Li....q enlouquecer a gente???? Como vou me concentrar???rsrs...
Adorei esse capítulo.
Bjs

Camila disse...

Nao faz isso comigo!!! Me deixar curiosa desse jeito!!!

estou amando Li!!!

cada dia melhor


bjoooos

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