18 de jun de 2011

Cap 16: Colocando o salto da Cinderela (Aurora)

Eu segurava com uma mão um livro de páginas velhas que parecia pinçado de um sarcófago e a outra mão apoiava a cabeça. Estendida na minha cama, meus olhos fixaram em um ponto atrás do livro, o pensamento suspenso com as palavras que acabara de ler. Era uma estória de romance secular sobre um amor impossível entre dois humanos com uma vida curta. Era o tipo de livro que não saíra da biblioteca da minha escola de superhumanos obviamente, mas de uma velha livraria do bairro de humanos.

Será que minha mãe morava em um desses lugares e tinha vivido alguma estória de amor? Já havia morrido, já havia partido? Mais do que uma saudade que eu não costumava ter, gostaria de saber que conselhos daria pra mim? Qual seria o papo de humana pra humana?

Eu amava meus pais superhumanos e sentia culpa pelo simples desejo de desapontá-los. Mas queriam pra mim um roteiro de vida tão anticéptico e cirurgicamente comedido que a casca do ovo começava a apertar e rachar.

Minha segunda mãe era mais complacente e queria me deixar curtir tudo que a idade me reservava. Porém, meu pai sempre estava ali pra me lembrar que se minha rebeldia custasse descobrirem que não tinham uma superhumanidade, eu poderia ser completamente expulsa e até linchada pela mesma sociedade que me ensinaria muito.

Só que não era uma questão de aprender, desafiar, sobreviver. Era amor. Tão perigoso e violento quanto a própria ousadia de ser humana entre superhumanos. Ele me machucava por tentar prendê-lo em um espaço muito pequeno no peito.

Nenhuma superhumana amaria alguém em tão pouco tempo. (ok, que esse alguém não fosse tão lindo, sexy e inteligente quanto Doug). No máximo, aceitaria dizer que era paixão. Rápida, arrebatadora, quente e passageira como todos os relacionamentos deles.

Amor era um sentimento humano, porque implica a perda, quem ama sabe que pode perder. Os superhumanos têm super saúde, super vida, super chances, super auto-suficiência. Eu sabia que amava Doug porque apesar de não poder nem querer tê-lo, eu o desejava relutantemente à distância, sob o fardo da condição de que eu seria um sopro em sua vida 3 vezes maior do que a minha longevidade. Mas, o jovem só consegue ler a hora que o relógio marca. E agora e tínhamos os ponteiros no mesmo lugar.

A única solução era uma intervenção que trocasse meu coração e cérebro. Mas, como eu não podia ser submetida a cirurgias assim por conta de problemas genéticos raros de rejeição a mutações, eu tinha que controlar o meu ser inteiro pulsando e reagindo à cada vez que Doug estava por perto.

Ir até sua casa fora um total ato de irresponsabilidade, mas que fizera descobrir a revelação sobre a família alfa. A explicação que Gisele dera sobre o assunto fora mais superficial do que o que procurei na internet assim que chegara em casa.

As empresas ainda não assumiam publicamente por questão de ética o uso dos Alfas, mas já havia dissidentes da prática que contavam terem vivido realidades de filme de TV em lugar de suas vidas. Agora, havia uma geração menos amoral dos Alfas, em que famílias inteiras eram convidadas apenas a expor as marcas naturalmente em seu dia-a-dia. O problema era que a prática anterior ainda realizada por empresas menos preocupada com o que os consumidores pensam e mais desesperadas em influenciar, ainda faziam coexistir as duas formas.

Ironicamente parecia um pouco com a minha situação, ser humana entre humanos era um paralelo entre os Alfas do bem e os Alfas do mal. Como eu podia ser tão ingênua em querer achar um ponto em comum entre Doug e eu? Até onde esse amor me levaria? Eu digo apenas “me” levaria sozinha, pois Doug não aceitaria viver nada mais que um fortuito caso, se não viver vários em que eu era um deles. Eu gostaria de ter nascido na época em que os humanos eram violentamente monogâmicos. Mas, isso se enfraquecera com a morte do amor pleno no último milênio.

Fechei o livro e lembrei-me que o treinador marcara um treino bem para essa linda tarde de sábado de sol. Eu tinha que malhar e retardar meu envelhecimento se quisesse que ao menos meu tempo corresse mais de vagar que o de Doug. Certifiquei-me com minha amiga Loren que tinha um namorado no time de futebol se havia pra eles treino também e a resposta positiva me deixou mais animada pra ir pra escola. Só tentei transparecer menos para meus pais quando passei pela sala. Eu começava a ficar neurótica com isso.

Infelizmente, o treino dos garotos fora fechado por conta do treinador ter achado que as escolas vizinhas mandariam espiões para verem suas táticas antes do campeonato. Sábado perdido. Depois do treino de handebol, as meninas foram embora e eu ficara sozinha me exercitando. Não queria voltar pra casa, sentia-me triste, com um vazio que era parecido com as minhas abstinências de chocolate quando precisava emagrecer.

Enquanto eu corria na esteira, percebi uma pessoa entrar no ginásio vazio. Primeiro estranhei o motivo de alguém sábado a noite querer ficar ali sentado. Meu coração de repente disparou e não era por conta da velocidade 10 da esteira. Eu estava tendo visões ou eu conseguira desejar tão forte ver Doug que ele aparecera ali pra me ver? Ele tinha marcado encontro com alguma outra garota do time? Por que só havia eu ali...

Tomei fôlego com a boca seca e diminui a velocidade. A esteira mais sua presença me enfarariam. Sequei o rosto, bebi água e deitei no leg press. Esperei o sangue correr até a cabeça e oxigenar meu cérebro pra que eu voltasse a ter pensamentos mais conseqüentes. Estava tendo visões. Olhei novamente e tive certeza. Era muito longe e escuro. Mas, eu podia reconhecer a cor do abrigo, da mochila, do cabelo. Eu estudava Doug de longe que era capaz de saber seus perfumes, roupas, sapatos tudo. E não era por conta de ser Alfa e eu desejar seus produtos. A embalagem não era o que importava. Apesar de ser efeito que as empresas desejassem, que percebêssemos as marcas como uma escolha preferida dos Alfas atrativos. Eu não queria que ele fosse embora! Como chamaria sua atenção? Apenas passando por ali e dizendo Oi? Não podia ser tão oferecida assim. E se fizesse vir até mim? Dando um gritinho: “Hei, você aí, vem aqui?” Não!

Minha ansiedade fazia minhas mãos suarem. Planejei uma coisa insensata. Eu deixaria ficar travada no aparelho e pediria ajuda. No mínimo se não fosse ele, teria uma boa alma qualquer pra me tirar dessa. O amor nos levava ao ridículo! Vamos à tarefa de atraí-lo pra cá...

Peguei a alavanca e... Aiiii... Esqueci-me que havia peso demais e me dei conta de que talvez não desse tempo pra que alguém me ajudasse antes de ter uma contusão. O treinador me mataria... Meu pai reclamaria meses porque eu não poderia aparecer na escola daquele jeito e não ir a escola era não ver mais Doug.

_Calma, vou te soltar. _era o próprio Doug, como eu desconfiava, já do meu lado. Sentindo o seu perfume maravilhoso masculino de banho recém tomado após seu treino, tive certeza que agüentaria mais um pouco só pelo prazer de revê-lo. Eu tentara nos últimos dias fingir que era alheia ao impacto da sua fama na escola, mas não havia uma célula do meu corpo que não ficava túrgida de emoção quando o via em algum corredor conversando com alguém.

_O que faz aqui?_procurei parecer assustada e surpresa. Estava virando boa atriz.

_ Eu vou tirar os pesos pra que puxe a trava. _ respondeu compenetrado em sua tarefa e prontamente me libertou do aparelho. Daquele ponto, conseguia ver tão bem seu lindo rosto preocupado em me livrar daquela trapalhada secretamente premeditada. Seus olhos azuis era um mar onde eu gostaria de me atirar de cabeça e me deixar loucamente ser tragada pela maré alta pra qualquer lugar longe e fundo dentro dele. Acho que fiquei nesse pensamento poético por muito tempo, pois demorei alguns segundos pra me dar conta de sua mão estendida em oferta. Prontamente deixei-me levar por aquele forte e quente toque de sua pele.

_O que faz aqui sozinha?_ perguntou-me e eu lhe cobrei a resposta pra essa mesma pergunta que fizera há pouco pra ele. _Está há muito tempo ali sentado? _cansei um pouco do jogo “eu sei que está me vendo”.

_Está querendo treinar mais que as outras?_ quis saber. Será que me achava prepotente? Queria lhe dizer que eu precisava dobrar meus esforços humanos pra ficar como elas. Não poder revelar e deixá-lo pensar mal de mim me fez morrer meu sorriso. Concentrei-me em passar pó nas mãos pra fazer meus exercícios de ginástica, prática que eu fazia desde muito pequena. Não era nisso que eu competia, mas gostava de não perder a prática e aproveitava o silêncio do ginásio pra treinar. Fiz alguns giros sem muita classe nas barras e não tive a melhor das minhas paradas no final, mas já estava cansada e era o fim do treino. Deixei-me ficar caída no colchonete, relaxando os músculos exauridos.

_A culpa é a falta de música... _ murmurei só pra mim. _Eu me saio melhor com música... _ falei num fio de voz e não imaginei que captaria de longe.

De repente, uma música começou a sair dos alto falantes do ginásio, como se meu cérebro pudesse se comunicar com elas e emitir um comando. O meu não, mas o de Doug. Virei o rosto para o lado e encontrei seu belo rosto travesso. Juntando forças, apoiei o cotovelo, depois o antebraço e sentei-me de lado. Era como se quisesse me ver ainda mais, pois ligou um holofote em cima de mim. Ok, é estranho dizer que tinha ligado uma coisa sem nem piscar os olhos. Isso tinha um efeito de disparar meu coração. Era bom que ele não chegasse mais tão perto ou eu o beijaria de uma vez por todas. Só não seria bom ter nenhuma testemunha.

_Melhor não ter tanta luz..._ pedi e ele desligou tudo e sentou-se ao meu lado. Eu não me mexi nenhum centímetro pra que não o intimidasse. Mas, Doug estava bem à vontade quando esticou o braço e acariciou minha bochecha, dedilhando meu cabelo.

O clima era perfeito. A música, a pouca luz e mais ninguém. Era o momento e o que eu tinha mais que esperar? Ele era só um cara lindo superhumano que fala com máquinas, tem corpo biônico e logo teria três namoradas incríveis superhumanas pra me esquecer. Não era em nada parecido comigo, nem me amaria. Quais os impactos de um beijo que só eu sentisse realizar a consumação de um desejo tão humano e apaixonado? Era só em mim que aconteceria o céu de fogos e eu guardaria muito bem a lembrança.

Aproximei-me de joelhos, até que fiquei na sua frente há um palmo mais alta que seu rosto. Toquei seu cabelo e experimentei o toque, registrando a seda dos fios escorrendo por meus dedos pra me lembrar pra sempre. Ele tinha o poder de ouvir o meu coração de longe? Porque eu ficaria vermelha se soubesse que sim. Que importa, está escuro, a música estava tocando e era o nosso momento...

Doug olhou para o lado em alerta, eu acompanhei sua atenção e vi alguém no portão do ginásio. Só podia ser sua mãe, o que era aterrorizador. Bastaria o próximo café com meu pai que ela lhe diria que estava ficando muito perto de seu filho. Pra ela, seria um inocente comentário incentivador de mãe e pro meu pai seria a previsão de castigo eterno em cativeiro domiciliar! Mas não sei como Doug fizera aquilo, sua mãe simplesmente foi embora e era hora de eu fazer o mesmo. Fiquei de pé pra pegar minha mochila.

_Posso te levar em casa? Estou de carro novo.

_E daí seu carro novo?! Agora dá pra acender a luz que eu preciso sair? _eu juro que queria não continuar naquele fingimento de rejeição, mas ele precisava ficar longe.

_Você não vai pensar nisso quando chegar em casa super rápido e bem... aquecida, está frio lá fora.

Não, Doug! Você não tem que ser legal comigo. Pára já com isso!

_Qual é, Doug? _parei na frente do portão, sendo seguida por ele.

_A minha? Só estou tentando ser educado com você! _aquilo era uma chantagem emocional! E funcionava muito bem, porque me senti uma grosseira.

_Tudo bem. _ eu não devia, mas aceitei.

Quando eu decidiria qual posição tomar? Pra isso, ia precisar de sua ajuda mantendo-se bem longe, o que não cooperava em nada.

Caminhamos até sua caminhonete, onde joguei minha mochila para dentro e fechei logo a porta por conta do frio. À noite, a temperatura caía bruscamente.

_Podemos parar no caminho pra comer alguma coisa? _ ligou o carro e programou um caminho antes que eu respondesse. _O treino foi puxado e preciso repor. _explicou pra não parecer um encontro. Já sabia muito bem que eu ia bancar a difícil. _ Já estamos infringindo os horários ou ainda dá tempo? _perguntou.

Infringindo? Depende do que o seu mundo pensaria em sair com uma garota tão normal.

_Ok, acho que posso te ver devorar um sanduíche.

Oh, céus! Eu podia fazer qualquer coisa ao seu lado, se tudo não fosse tão complicado!

_Sanduíche? Não... _ riu e eu senti um ligeiro medo. _Eu não te levaria a uma lanchonete gordurenta.

Aquilo era voltar a ativar meu senso de proteção. Pensei em mudar, mas Doug captou:

_Ãnh-ãnh, você já aceitou! _virou o carro e ganhou estrada. _No banco de trás sempre tem coisas da Gisele. Veja se tem alguma coisa que sirva por aí?

Do que estava se referindo? Virei pra trás e puxei um sobretudo que eu venderia o cabelo pra comprar e um sapato alto largado sobre o acento. Mas, por que eu usaria aquilo?

_Só tem umas coisas aqui formais. Não serve... _falei com a voz abafada, tentando pinçar o outro par do salto.

_Claro que vai servir. _acelerou mais o carro.

Doug estava me levando para um lugar não só público, mas totalmente em evidência? Por isso, eu precisava do casaco? Minha casa estava já muito longe pra trás e eu queria muito seguir aquele caminho... Então, vesti o salto de cinderela por uma noite.

4 comentários:

Gabi disse...

Eita meu deus!!!

Eu to vendo que vai dar confusão!
Era melhor ela testar o doug pra contar logo que ela é humana ou se afastar dele!

Mal posso esperar pra ver o que vai acontecer!

Li Mendi disse...

Entao... aguarde o próximo cap!

Brina disse...

Li isso ñ se faz...rsrsrs....
aiai... agora vou ficar mais ansiosa pela continuação.....não demora tá.!!
Bjs

Camila disse...

eu sempre acho que o novo cap, vai terminar com minha ansiedade, porem ele só faz aumentar!!!!

Parabens Li!!!!
Cada dia melhor!

Mil Bjinhos!!!

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