26 de jun de 2011

Cap 18: O importante não é o como, mas o por quê (Aurora)

Eu saí do sono profundo como se fosse o fim de um pesado cochilo após os treinos exaustivos de temporada de campeonato. Mas, não era minha cama, nem havia meus quadros na parede, tampouco o travesseiro era fofo como o meu.

Meu nariz reconheceu o éter antes que meus olhos distinguissem as formas e sombras do hospital que se desanuviava por trás da fumaça turva. Estava tudo sob meia luz e o barulho do bip de um aparelho atrás da minha cabeça foi a primeira coisa que pude ouvir.

O que acontecera...? Tentei rapidamente me lembrar de alguma contusão em um jogo, acidente de carro, uma queda no banheiro de casa...? Respirei profundamente pra oxigenar o cérebro e fui golpeada com mais uma lufada de vida. Abri ainda mais os olhos e me dei conta das minhas mãos sobre o peito, enfaixadas.

O fogo. A memória física ardeu as vistas e fez as pálpebras se recolherem novamente em proteção. Sozinha, na escuridão do pensamento, vi os cães. O maior de todos lambia o sangue de Doug e estava prestes a devorá-lo. Eu não seria capaz de sobreviver após vê-lo ser extirpado por feras assassinas. Enquanto meu cérebro antevia a cena de morte em uma projeção horripilante, meu coração menos racional bombeava meu coração como um aquecedor potente. O fogo começou dentro de mim, irradiando pelos músculos, concentrando nas mãos que começavam a arder.

Eu sabia o que iria acontecer. Esperei muitos anos com o medo de que isso viesse a se repetir. Mas, agora era a melhor hora e, contraditoriamente, eu desejava que se sucedesse outra vez.

Quando eu era apenas uma garotinha levada brincando no quintal de casa, passei pela cerca de arbustos para buscar uma pequena bolinha que rolara para o jardim do vizinho. Seu cão de guarda não fez distinção entre mim e um ladrão e veio em minha direção com os mesmos olhos das feras salivando pelo corpo de Doug. O meu pavor foi sucedido pelo fogo que se lastreou pela grama que minhas mãos tocavam e o animal se afastou.

Eu ficara de castigo por um mês e não havia como convencer minha mãe de que eu não estava fazendo nada além de buscar minha bola. Ela ainda tentou explicar para a vizinha que toda a criança tem uma fase de fascinação com fogo e que iria pagar para recuperarem seu jardim.

Eles não acreditavam, mas eu tinha as marcas nas mãos enfaixadas de que o fogo começara dentro de mim. O meu medo solitário de que viesse ocorrer de novo e fazer algum mal a alguém me acompanhou por todos esses anos até que vi Doug prestes a morrer na minha frente. Eu não sabia como era o gatilho para começar, mas parece que meu instinto fez sozinho e logo sentiu uma febre violenta.

Agora eu sentia cansaço e fraqueza, como se tivesse dormido em uma sauna. Se eu tinha problemas para explicar a Doug que eu era só uma humana, como seria se soubesse que eu posso me descontrolar e incendiar tudo? Eu era uma anomalia como aqueles cães mutantes?

_Aurora?_ ouvi a voz grave do meu pai no meu lado direito. Abri os olhos e enxerguei o teto, lentamente virei a cabeça em sua direção e o borrão logo focou o seu rosto. Devia estar há muito tempo na poltrona vigiando meu sono. _Filhinha? Acordou? _Levantou-se .

Engoli em seco. Era hora de falar sobre o superhumano, o beijo, o fogo, a fera, o jantar, a parada no meio do caminho. O que escolher primeiro?

_Como está o Doug, o amigo que estava comigo?_ perguntei, sentindo minha garganta muito seca e os lábios rachados.

_Oh, está bem. Alguns pontos no ombro. Superhumanos, superforça, super recuperação... _ balançou a cabeça como se falasse pra eu não me preocupar com uma dor de cabeça do garoto. Mas, não era esse super homem que eu vira no chão sangrando e com medo das feras. Eu é que o salvara de alguma forma sobrehumana... _Mas, você, querida, precisa se recuperar...

_O que aconteceu? _ eu sabia de tudo, mas era melhor que escutasse sua versão porque talvez fosse mais fácil que a minha. _Eu não me lembro bem...

_A irmã do seu amigo me disse que precisaram parar para que visse um problema no carro e apareceram umas feras loucas. Ainda bem que você conseguiu afastá-los com fogo. Sorte a sua que conseguiu achar um isqueiro.

_Ãnh... _engoli em seco, olhando minhas mãos. Eu deveria contar que, quando criança não tinha isqueiro nenhum no quintal, assim como hoje eu também provocara o incêndio de mãos limpas?

_Amanhã já poderei levá-la pra casa e logo ficará boa... _beijou minha testa e eu sabia que aquele beijo era um aviso de que me afastaria com carinho pra me proteger.

Na troca de turno entre meu pai e minha mãe, falei-lhe que queria ver Doug. Sabia que encontraria menos resistência se destinasse meu pedido a ela. Ainda tentou o argumento de que teríamos todo tempo do mundo para nos vermos, mas era só insistir mais uma vez. Riu nervosa e perguntou se eu iria ver aquele garoto gato vestida com aquela roupa amassada que trouxera sem nenhum escolher na pressa e que colocara em mim. Eu não respondi, mantendo minha posição.

_Você quer encontrar com os pais dele agora? Estão lá, encontrei a sua mãe no café...

Não me importava mais. Eu tinha decidido no banheiro do restaurante, enquanto tinha uma breve crise de decisão que era hora de arriscar mais. Quem poderia ter mais direito a curtir mais a vida do que aquele que tinha uma vida mais curta, mais frágil, senão o que tinha menos anos pra aproveitar. Era uma visão completamente egoísta, mas o que eu ganhava sendo altruísta? Não ter nenhuma memória, nenhuma cicatriz, nenhuma lembrança?

Minha mãe ajudou-me a ajeitar o cabelo e pôs um casaco em mim, enquanto eu manejava no ar as mãos enfaixadas.

_Isso é totalmente contra as regras do hospital! _ela falava como se pulasse o muro da escola. Aquilo era totalmente contra as regras da sociedade. Eu estava querendo ver meu adorável superhumano me fazendo me passar por mais forte do que era. O que importava andar no corredor fora da hora? _ A qualquer hora que quiser voltar, é só me falar. _ sussurrou, me sustentando com seu braço de apoio. Eu não podia retroceder no tempo, mãe. Ele era a força motriz que me fazia sentir muito viva, apesar do corpo débil.

A porta abriu e a mãe de Doug virou o rosto para nós. Minha mãe desculpou-se pelo incomodo e olhou pra mim. “Você não queria vir, agora diz alguma coisa!”. Estava um pouco fraca para pronunciamentos, eu tinha salvado sua vida, precisava fazer sermão diplomático? Dei alguns passos sozinha e vi Doug sonolento. Seus olhos azuis me encontraram e seu sorriso surgiu como um pequeno risco no rosto.

_Que tal outro café?_ minha mãe propôs e as duas saíram depois de checar que podíamos ficar sozinhos.

_Suas mãos..._balbuciou. _Como fez aquilo? _franziu a testa.

_A única coisa que tem que lembrar é “por que eu fiz aquilo”.

Ele não perguntou, esperando que eu lhe entregasse o motivo logo em seguida.

_Doug... _ aproximei meu rosto do seu e com uma mão em forma de luva de boxe acariciei seu rosto. Falei ao seu ouvido com voz de sussurro: _ Você pode imaginar um sentimento maior do que esse? _Olhei novamente seu rosto lindo. _ Ninguém mexe com o meu Alfa. _sorri e encostei a mão no seu peito liso com o ombro enfaixado. Puxei seu cordão de couro e o beijei delicadamente.


[Continua...]

5 comentários:

Gabi disse...

Muito bom!!!

Cada vez melhor...mal posso esperar pra ver o que vc está preparando!

Camila disse...

Liiiiiiiiiiii, nao me mate do coraçao!!!

Quero a visao do Doug logo...kkkkkkkkkkkkk


bjooos\\cad adia melhor viu ;) se isso é possivel...hehehehe

Thaís disse...

Li socorro, vou ter um ataque de tanto esperar. Ñ vejo a hora de ler o próximo cap.

Thaís disse...

Pô, Li tenha piedade...eu to loka pra saber o q vai acontecer.
P.S. Adoro suas histórias, gente cm vc é o orgulho do Brasil.

Anônimo disse...

amando o livro. me manda quando vai sair o proximo capitulo.bjO
ESTRELA_PG@HOTMAIL.COM

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