17 de ago de 2011

Cap 20: Proposta tentadora (Aurora)

Deitada de bruços sobre a minha enorme cama boxe de casal, eu deixava o queixo afundado no travesseiro fofo e olhava através da janela as folhas secas das árvores caindo. Essa era a hora em que eu devia estar vasculhando meu guarda-roupa para ir a escola. Mas, eu não tinha como aparecer por lá enquanto minhas mãos enfaixadas denunciassem minha fraqueza humana. Minhas recuperações eram muito lentas e eu só podia me contentar em escolher qual seriado de televisão iria me dedicar a assistir embrulhada no edredom.

Fazia dois dias que Doug e eu saímos do hospital. Ele devia estar preparado para outra, enquanto eu rezava para não precisar mais contar com a sorte. Pra mim, a vida podia acabar tão repentinamente como as folhas retorcidas que se despendiam dos galhos. Doug existiria por três gerações a mais que a minha; tinha mais beleza, dinheiro, sucesso, fama e eu ainda me sentia egoísta em não contar toda a verdade, mesmo sendo eu a maior perdedora, no final das contas.

Se ao menos estivesse frio pra justificar o uso da luva. Nem assim, um pedaço de couro não encobriria todas as perguntas que me fariam. Fui ensinada a sempre recuar, fugir. (Quando beijei Doug no hospital, eu sentia que quebrava essa regra natural.)

O meu celular vibrou ao meu lado e eu com a cara amassada apenas fechei o olho e esperei a identificação da música. Eu tinha uma canção para cada pessoa.

Fora muito difícil escolher a de Doug, mas a antecipação do prazer pré-toque sonoro injetava adrenalina em doses cavalares assim que enchiam meus ouvidos. E era ele! Respirei fundo em hesitação, não era bom atender.

O que eu podia perder, se viveria menos que ele? Apertei o botão. Estava cada vez mais impulsiva, isso se tornaria insustentável a qualquer momento e eu faria uma besteira:

_Oi. _ disse-lhe, me lembrando em seguida que o melhor era um alô impessoal. Mas, hei, eu beijei sua boca e aquele gato-mais-desejado-da-cidade me ligava!

_Oi, Aurora. Como está? Não apareceu na escola.

_Melhor, melhor...

_Te busco hoje? _aquilo parecia uma proposta de amigo de infância corriqueira, quando eu estava sendo o pensamento matinal do cara mais lindo e perfeito que já sonhei na vida.

Rolei na cama e sorri. Idiota eu, não podia sair.

_Ãnh. Ok. _respondi. Eu de fato estava aceitando dar as caras no colégio só por causa de Doug? Como “só”? Ele era tudo! _Mas, vamos precisar chegar um pouquinho atrasados, porque eu não estou pronta ainda... _pulei da cama. Se isso pareceu papel de difícil não foi a intenção, eu realmente não conseguiria me arrumar na velocidade da luz.

_Eu posso esperar. Já estou à caminho.

_Tudo bem. _desliguei sentindo um frio na barriga de me fazer perder a fome. Enfiei-me em um jeans justo, e uma blusa de mangas comprida longa. Precisava disfarçar as luvas que encobririam as faixas nas mãos.

Parei diante dos meus pais na mesa do café da manhã me olhando como se a casa fosse uma bolha a prova de todos os vírus mais potentes do mundo e eu estivesse prestes a sair da incubadora.

_Eu não posso perder mais aula. _disse-lhes com um tom de quem já vai ficar reprovada, mas havia um sentido mais amplo e revolucionário. _Um amigo vem me buscar.

_O mesmo do hospital? _meu pai quis saber.

_Sim._estiquei o braço para pegar um pouco de suco, mas minha mãe adiantou-se e me ofertou. _ Obrigada. Esse é o último ano pai, logo não vou mais precisar me esconder por causa da bolsa. Vou estudar em casa e fazer faculdade à distância. Preciso me adaptar a minha realidade.

_Namorando um superhumano? Acha que ele vai querer apresentar uma humana em casa? _meu pai sabia ser duro comigo quando queria me dissuadir.

_Eu não lembro de ter dito que ele é meu namorado, mas, um amigo.

_Já viu superhumanos andarem com humanos como amigos?

_Vocês até adotaram uma! Por que não ter amigos tão bons quanto? _dei de ombros, pisquei, joguei um beijo e abri a porta.

Meu coração estava pela boca quando cheguei no portão. Meu pai era a pessoa mais inteligente e sensata que eu já vira e o meu coração na proporção oposta burro.

Doug parou o carro e eu subi com um sorriso radiante e, não, o diminuiu nem quando ele encarou minhas mãos, não queria levantar dúvidas do quanto estava bem.

_Vamos precisar acelerar... _Doug aumentou a velocidade e eu aproveitei a deixa para apreciá-lo esta manhã no jeans claro, blusa verde musgo, blusa gola v verde musgo com a beira da manga descolorida estilosamente e um perfume que fazia todo o resto perder a diferença com aquele estado de dormência que me provocava.

_Então... _começou a puxar assunto. Será que eu o incomodava com meu estado de mudez? _... Mexer com você é como mexer com fogo? _ brincou, se referindo a noite em que afastei os cães. Abaixei um pouco o queixo e dei um risinho. Ele não podia realmente acreditar que seria possível atear fogo daquela forma com um isqueiro ou fósforo. A ignorância era reconfortante, nesse caso.

E se eu tivesse poderes? Isso me daria mais chances com o Super Doug? Outra idéia tola. Era melhor abrir a minha boca pra não desesperá-lo mais.

_Chegamos. _ o motor do carro desligou e eu percebi que estava próxima do pátio apinhado de alunos. Era só a escola e eu estava prestes a sair com Doug para a surpresa de todos?! Óh que idéia genial a minha, que não batia em nada com o plano de não deixar que notassem minhas luvas. Ok, já me achavam estranha, no mínima, me chamariam de careta.

Doug me olhou, já sem o cinto de segurança. Eu devo ter passado tempo demais pensando. Abri a porta e pulei pra fora. E agora? Ele pega na minha mão e andamos juntos? No meu braço? Ou ficamos totalmente indiferentes? Eu estava tão insegura que podia sentir minhas mãos suarem dentro das luvas.

Vi os rostos virarem pra mim, mas não era comigo que se importavam. As pupilas estavam fixas naquele garoto lindo que acabava de encostar a boca pra falar no meu ouvido com voz rouca:

_Acho que estamos atrasados, vamos?_ afagou o meu braço, encostando sua barriga na minha. Não pude ver a reação das pessoas, pois meus olhos se fecharam e me senti meio mole. Podia ter certeza que minhas bochechas queimavam. Ótimo, eu devia estar muito pálida.

_Hum... que vontade de matar aula. _ gemi e dei um risinho.

_Não me faça esse tipo de proposta que eu aceito. _ sorriu e mexeu no meu cabelo.

Podia ver sobre seus ombros, de costas para a platéia que tentava disfarçar testas franzindo. Aposto que tentavam lembrar meu nome, falando em leitura mental um para o outro como uma grande rede de dúvidas. Era bom não saber o que pensavam.

_Estou brincando... _ pisquei e toquei no seu ombro e depois no pescoço com carinho.

_Não se brinca com fogo, ãnh?

_Você agora vai me perseguir com essas piadinhas, não é?_ri alto e o belisquei, o que o fez me envolver com um braço forte e pronto, estávamos colados, com nossos rostos tão próximos que eu já me sentia na zona de segurança de atacá-lo com um beijo. Calma, Aurora, se contenha.

_Doug, falo sério, vamos entrar? _ eu tentava manter a responsabilidade, mesmo que a real intenção não fosse essa.

_Podemos passar o dia juntos hoje. Eu posso pegar as aulas depois..._piscou.

Eu não disse não de imediato. Engoli em seco. Já não iria pra escola mesmo e teria que pegar a matéria de qualquer forma! Mas, hei, não foi bem isso que falei pros meus pais quando saí! Matar aula me pareceu tão tentador quanto errado. Do que eu estava preocupada? Era uma aluna muito aplicada e poderia culpar os dias anteriores que fiquei em casa pelo baixo rendimento...

_As pessoas já nos viram aqui. Podem comentar...

_Com quem? Seu pai e minha mãe? _ pensou.

_Minha mãe não vai achar anormal não cruzar comigo, já que tem um monte de coisas pra fazer. E você? Tem alguma aula com seu pai hoje que note sua ausência? Voltam juntos pra casa? _arquitetou.

_Está falando sério mesmo? _ri, desconfiada que estivesse só me testando. _E pra onde iríamos que as pessoas não vissem?

_Meus pais estão viajando. Podemos ficar na minha casa.

Beeennrrrr. Sinal vermelho com som de buzina de navio nos ouvidos! Pra sua casa? Eu tinha um grau loucura, né?! Mas, que intenções eram essas?

Era a última chance de entrar, o portão fecharia. Dei um passo a frente, mas Doug me puxou de volta com sua força como se eu fosse uma pena. Agora, eu estava séria.

Entrar poderia despertar atenção das pessoas para minhas mãos. Isso era tudo que meu pai não queria. Eu tinha uma vida muito curta pra ficar toda ela na margem de segurança. Ali na minha frente, estava o garoto mais lindo que já conhecera acelerando meu coração em uma medida preocupante. Mesmo com todas as desculpas, ainda tinha medo de estar me precipitando.

_Hei, lá tem piscina, podemos almoçar com calma, ver um filme, o que quiser. À tarde, fazemos o que você quiser. A aula hoje vai ser muito chata.

Todos os dias tudo era muito chato. Olhei o portão ser fechado. Eu mesma já tomara minha decisão quando hesitara.

_Isso não é certo... _deixei soltar.

_Se fizer tudo que é certo, que graça tem a vida? _abriu a porta, mas eu continuei parada, recostada na sua caminhonete. Ele viu que era preciso o último lance de inspiração de coragem e me beijou.

Seus lábios estavam quentes e macios e entendi que só aquilo era importante pra mim agora. Afaguei seu cabelo de leve, sem poder mexer muito com os dedos e o abracei mais, sem querer que o beijo acabasse.

_Podemos continuar desse ponto depois... _sorriu pra que eu entrasse.

Respirei fundo, balancei a cabeça para os lados em silêncio e entrei.

Doug dirigiu calmamente para sua casa e paramos no estacionamento ao lado do jardim gramado.

Eu estava com medo do que ele queria dizer com “continuar daquele ponto”. Entramos na mansão e não estávamos sozinho como prometera. Havia uma mulher de cabelo azul curto e olhos acizentados quase brancos sentada no sofá com uma xícara de café que acabava de ser servido por sua empregada.

_A Senhora Felícia o estava esperando, senhor. _falou a empregada.

Doug não respondeu nada, sua cara era tão dura que tive medo. Como ela sabia que ele estava prestes a chegar? Lera seu pensamento? Quem era aquela mulher?

_Felícia, o que quer? Podemos falar depois?

_Eu vim falar com ela. _ olhou para mim.

_Comigo?_ encarei Doug com a testa franzida, não lembrava de conhecê-la.

_Felícia, já discutimos isso antes. Aurora, não, ok?

_Eu não o quê? _perguntei, muito confusa e agora com medo.

_Nada, meu anjo._ sorriu pra mim com dureza e me envolveu com um braço. Ela representava tanto perigo que precisasse fazer aquele gesto de segurança?

_Sim, já falamos, eu lhe expliquei o nosso ponto Doug.

_Tudo bem, podem me dar um tempo pra falar com Aurora e depois eu e você nos falamos novamente?

_Vou aceitar sua oferta._levantou-se, olhou-me longamente e saiu.

_Doug o que está acontecendo? _questionei quando a porta bateu e ele coçou com força o queixo.

Estávamos com planos para ficarmos tranqüilos e sozinhos em sua casa e de repente, ele estava uma pilha por conta de uma mulher que nunca vi querer tanto falar comigo. Qual era a surpresa que eu teria agora? Era bom que começasse a falar!

2 comentários:

Camila disse...

Mto, mto bom!!!! Pq vc tortura tanto a gente hein??? Como sera que Aurora vai reagir? O que sera que Doug vai falar....AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAh quero o proximo cap logo...rs

bjoos Li

Brina disse...

Ei Li esse capítulo foi excelente, D+...mas pra variar deixou a gente com um gostinho de quero muito mais!!! Por favor não demora a postar mais!
Beijo e Parabéns!!!

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