12 de out de 2011

Cap 38: Um dia só pra mim (Doug)

Trilha do capítulo clique aqui

Era o primeiro dia do mês e eu já havia enviado um relatório pra Felícia de que tiraria folga completamente, incluindo não estar online pra ninguém. Ela reclamou pelo tempo de três palavrões até que desliguei e a deixei em off.

_Vai sair, querido? _minha mãe perguntou, me vendo caminhar até a porta.

_Vou pra nossa casa na montanha ficar sozinho. _disse-lhe.

_Quer que eu acredite? _ ela riu e continuou a ler sua revista no vidro da mesa, tocando em alguns pontos para ampliar as imagens, enquanto tomava seu café da manhã. _Não tem aula hoje?

_Tenho, mas baixo depois a matéria, não quero participar da aula, estou precisando descansar, estou trabalhando muito...

_Vai convidar Aurora pra matar a aula com você?_quis saber, não tinha paciência pra rodeios.

_Não. Vou ficar sozinho. _ respondi-lhe.

Quando aproximei-me do carro, este reconheceu meu comando de voz e destravou a porta. Entrei e meu playlist continuou a tocar de onde eu havia parado. Toquei na tela do GPS pra se auto programar para o caminho da colina. Tínhamos uma casa próximo, há 30 minutos dali, em uma área de mata verde e densa onde nos refugiávamos quando queríamos. Nossa vida era muito exposta.

Ao chegar, o jardineiro acenou com sua tesoura de podar plantas na mão e eu fiz um gesto de cabeça, sem sorrisos. Sentia que toda a minha alegria estava vendida, minhas prateleiras da alegria haviam sido saqueadas e completamente.

Sentei no sofá branco, estiquei as pernas, ajeitei as costas nas almofadas e fechei os olhos. Eu simplesmente não queria ouvir a voz de ninguém, já não suportava ter que conviver com minha nova namorada arranjada e nunca tive tantas festas e produtos pra promover. Mas, eu não podia chamar aquilo de uma avalanche, pois era eu mesmo que procurava subir até a montanha do trabalho e provocava aquele verdadeiro deslizamento de tarefas sobre mim. Até Felícia me aconselhava a parecer mais saudável. Sua ganância, porém, se contentava o suficiente com o sucesso dos seus negócios e parcerias que era fácil fingir que nada estava acontecendo com seu Alfa.

Fechei os olhos e senti as pálpebras um pouco trêmulas, manifestação do estresse do dia a dia. Só existia entre a minha solidão interior e o silêncio incômodo de fora, a barreira do meu corpo físico vigoroso e bonito. Uma parede de células oca.

Já fazia um mês que Aurora saíra da minha casa e eu ficara mal por saber que não podia ter algo mais longo com ela. Felícia acabara contando a minha mãe sobre Aurora, na esperança de que esta fosse mais uma vigia pra me conter.

Minha mãe bateu na porta do meu quarto e entrou. Eu estava sentado na sacada, com os pés em cima de um velho baú. Sentou-se ao meu lado em uma poltrona.

_Eu não quero te ver assim... Por isso, chegou a hora de eu lhe contar uma coisa...

_É sobre Aurora?

_Eu já sei que você ficou sabendo que ela é humana...

_Já sabe?

_Sempre soube, antes de você.

_Mas...? _franzi a testa.

Eu havia expulsado Aurora de casa para que meus pais não descobrissem que era humana. Agora, eu acabara de descobrir que não era necessário tê-la feito passar por aquela exclusão tão indelicada.

_Eu conheço o pai de Aurora há muito tempo. Ele me indicou pra ser diretora dessa escola quando decidi me dedicar um pouco mais a nossa família, vindo morar aqui. Somos amigos desde a faculdade...

_Nunca me falou!

_Sim, tem muitas coisas que você ainda não estava preparado para saber.

_Então, ele lhe contou que Aurora era humana pra poder deixá-la estudar na escola?

_Hum... não._ fez uma cara de que eu estava bem longe da verdade. _Aliás, eu nunca imaginei que você dois pudessem se gostar... _fez uma careta. _Esse mundo é mesmo surpreendente! Vocês... _parou.

_Vocês...?

_Vocês são diferentes, mas são iguais também. _disse. _Eu fiquei ansiosa desde que você nasceu pra te contar isso e nunca decidi se contaria. Mas, ver você assim sofrendo não me permite viver com a consciência tranqüila...

_Eu não estou conseguindo entender metade do que está querendo dizer.

_Eu sei._respirou fundo. _Doug, eu vou lhe contar uma coisa que chegará a hora da sua irmã saber também. Mas, cada coisa ao seu tempo. Você é capaz de guardar esse segredo?

_ Bom... fale.

_Querido, eu e o pai de Aurora trabalhávamos antes de vocês nascerem em uma pesquisa secreta sobre o limite da capacidade de fazer mutações genéticas. Nós contratamos uma mãe de aluguel pra gerar uma criança que... Doug, me prometa...

_Prometo! _jurei logo pra que continuasse.

_...Ninguém pode saber disso.

_Ok! O que tem a criança?

_Nós queríamos saber se podíamos gerar uma criança com poderes.

_Poderes?_repeti, franzindo a testa.

_Como me arrependo disso, pois brincamos de ser Deus. Éramos tão frios na época. Eu agradeço por tudo ter dado certo, mas se não desse?

_Deu certo? Vocês geraram uma criança com poderes? Que poderes?

_A criança teria habilidades. _trocou a palavra poderes por habilidade, mas isso não me deixava menos curioso pra saber o final da história._o projeto do pai de Aurora era criar uma menina que pudesse canalizar sua energia, transformá-la em calor e...

_Em fogo? _terminei sua conclusão, lembrando-me do incêndio quando Aurora me salvou dos cães mutantes.

A imagem de Aurora em minha mente se fixou. Sua pele alva, seus cabelos vermelhos, seu nome, tudo remetia ao projeto perfeito de transformá-la na criança de fogo.

_Então, perai. Ela não é uma humana. Ela é super humana?

_Não.

_Não para qual pergunta?

_Aurora é algo que não sabemos definir. Ela acreditou que era uma humana por muito tempo, era a forma de protegê-la de alguma reação indevida com algum medicamento ou intervenção.

_Mas, isso não é justo...

_Sabemos disso e...não é só a saúde que importa, mas o fato dela se sentir inferior a você, por ter sido expulsa e deixada por você, Doug. Você fez isso por nós, pra nos preservar. Pra preservar Aurora também. Mas, não quero vê-lo sentir-se um monstro, como agora, porque eu também me senti assim por muitos anos por conta daquela pesquisa e daquelas crianças...

_Você disse crianças?

Lembrei-me do começo da conversa em que ela dissera que Gisele também precisaria um dia saber da verdade.

_Doug, Aurora não foi a única criança, mas uma das... Você e Gisele foram concebidos por mim...

_Mas, somos super humanos normais! Não somos?

_Eu os criei assim. Não tinha a sensatez e responsabilidade do pai de Aurora, eu queria acreditar que eram super humanos normais e os tratei assim.

_O que somos?

_Mutações genéticas.

_Mutantes?

_Não importa o nome, você é saudável, lindo, bem sucedido, feliz, perfeito.

_Eu tenho habilidades?

_Não se manifestaram, querido. Isso só aconteceu com Aurora. Ela agora precisará lidar com todas essas revelações. Estar com Aurora significará que você não poderá ser um Alfa. Imagina se todos descobrem essa história. Eu seria presa junto com o pai dela. E ela seria engolida pela imprensa como uma aberração...

_Então, veio me contar toda essa história pra limpar sua consciência e pra dizer que não muda em nada nossa distância?

_Não. Pra dizer que você pode escolher entre ela e nós. Desculpe, mas a vida é tão dura quanto isso.

_E o que acha que eu devo fazer?

_Deve ficar longe dela. Como disse, nunca imaginei que aquelas células cresceriam e se transformariam em duas pessoas que se amariam... Que o destino seria tão irônico. Deixe Aurora em paz. Se aceitar isso, podemos nos mudar daqui pra não ter que vê-la mais.

Minha cabeça estava girando com tantas informações.

_Você vai superar isso. _ela saiu.

Superar?

Eu estava agora deitado na nossa casa da montanha. “Isso” era um sentimento muito forte que eu tinha dentro de mim e que não conseguia sufocar.

Dias depois minha mãe me contara que o pai de Aurora revelara a ela a verdade e que estavam passando por um terrível período de conflito. Reforçou pra que eu a deixasse em paz e não trouxesse os holofotes pra cima da garota.

Mas, justo agora eu tinha uma sombra de esperança de que Aurora podia viver mais tempo e ser tão forte quanto eu! Queria tanto vê-la.

Disquei o seu número e chamou duas vezes. Atendeu.

_Aurora? _tomei coragem e falei.

_Quem é?

Ri. Era louvável sua encenação de que tinha apagado meu contato da sua lista.

_Doug.

_Ãnh. _ficou em silêncio. _Dia primeiro? Quantas horas vai ser? _falou carregada de ironia.

_Todo o dia. Estou na casa da montanha. Vem pra cá.

_Você acha que eu sou o quê? Eu não quero te ver pintado, seu pateta vaidoso, alfa idiota, inconseqüente, ridículo! _gritou, xingou, cuspiu, desligou.

Mas, meu coração se acelerou. Quando Aurora não tinha tristeza, mas raiva, isso me dava esperança. A raiva é um sentimento vizinho do amor.

Eu estava terminando de fazer um lanche na cozinha, vendo a chuva caindo forte lá fora, quando o caseiro anunciou que tinha uma desconhecida toda molhada na sala. Perguntou o que devia fazer.

_Não se preocupe, eu a estava esperando.

Caminhei pelo corredor de assoalho de madeira e como estava descalço, não fiz barulho algum. Queria observá-la de longe e não me adiantei pra chamar sua atenção.

Ela estava de costas com o cabelo molhado de um ruivo escuro como sangue caindo por suas costas, pingando sobre o sobretudo vermelho de couro. Meu coração disparava descompassado em pensar que Aurora estava na minha sala, como eu tinha pedido.

Caminhou até a lareira e ficou parada, olhando a madeira, mas estranhamente não havia nenhum fogo para admirar, só pedaços de troncos com fuligem. Agachou-se e estendeu a mão.

De repente, prendi a respiração e lembrei-me de que tinha uma habilidade. Não faria isso na minha frente, faria? Queria me aproximar curioso, mas não pestanejei.

Parecia uma garotinha aprontando, em uma posição como se fizesse prece sobre a madeira. Seu riso soou por toda a sala e vi uma fagulha de fogo iluminar as toras. Não seria possível! Ela riu mais e esfregou as mãos, como se não tivesse conseguido controlar muito bem aquela mágica.

Como eu podia ser completamente apaixonado por aquela mutante travessa? Sorri, cheio de uma felicidade única que apenas ela provocava em mim.

Ela levantou-se e se virou, tomando um baita susto quando me viu. Recuou e apertou uma mão contra a outra.

Eu é que estaquei, estonteado com sua beleza. Seus grandes olhos verdes e brilhantes estavam mais destacados com a sombra escura em torno dos olhos. A boca estava com um brilho úmido. Uma fita preta amarrada ao seu pescoço segurava um broche antigo. O sobretudo estava aberto, mostrando seu vestido de couro preto costurado ao corpo, com os seios suspensos e redondos.

Fiz um meio círculo ao seu redor e parei por trás. Delicadamente puxei seu casaco, aproveitando pra escorregar os dedos pela pele sedosa dos ombros e braços. Joguei-o sobre a poltrona ao lado da lareira e puxei-a pela cintura até que se colou a mim. Afastei seu cabelo e beijei sua nuca, roçando ali os lábios sobre os pêlos eriçados.

_Não vai me oferecer nada pra beber? _virou-se de frente e deu dois passos atrás.

_Claro. _procurei uma garrafa no bar e uma taça.

_Vinho. _pediu.

_Que bom que veio._entreguei-lhe a taça com vinho tinto.

_Será a última vez. _disse com uma voz amarga, balançando a taça pra girar o vinho. _ Nunca mais vai me ter, Doug. Nunca mais.

Aquela promessa era quase uma condenação de morte. Só podia estar denegando.

_Já disse o mesmo pra si mesma? _perguntei.

Ela fez uma cara de pouco caso e bebeu o vinho.

_Você não conseguiu resistir também, não foi?

Engasgou-se com o vinho e algumas gotas escorreram por seu pescoço.

_Oh...

_Não! _ tomei-lhe a taça e segurei seus dedos pra que não se limpasse.

_Doug...

_Você é única... _ segurei sua nuca e olhei pra sua boca vermelha com aroma de vinho e álcool respirando muito perto. A gota ainda estava em seu queixo, um vermelho agora translúcido._Você é tudo. _beijei seus dedos com carinho, sem pressa. _Você é perfeita.

_Será sua última vez. _repetiu aquela promessa com uma voz rouca. _Doug..._acariciou meu rosto com a barba rala.

O beijo começou suave, superficial, no contorno, nos cantos, no queixo, na beira, aproximando da pontinha do precipício. Íamos nos jogar juntos e a queda seria longa e alucinante. Envolvi-a em proteção e fomos juntos nos libertando de tudo, até sermos só duas peles, dois corações, duas bocas e finalmente um só, caindo e caindo, a velocidade da queda maior e maior, mais rápido, mais rápido. E o fim é como a morte, o silêncio, o nada, o vazio, um sono profundo e longo.

Eu ressuscitei primeiro, reabrindo os olhos. Ainda era o paraíso, pois ela adormecia em meu braço, perfeitamente agarrada a mim. Sorri, admirando o rosto mais perfeito que poderiam ter concebido. Quanto tempo ela sofrera achando que era uma humana comum? Meu coração sempre a considera sem qualquer defeito.

_Que horas são...?_ela resmungou e se mexeu com uma careta. O sofá era muito largo, mas não o mais confortável do mundo.

_Aqui não tem hora. Fique. _mantive-a apertadamente grudada a mim.

_Um dia a noite acaba e vem o dia 2.

_Não penso nisso..._ beijei seu pescoço, querendo guardar aquele aroma.

_É fácil pra você...

Fácil? Eu nunca achara fácil ficar longe da garota que mais amei pra protegê-la daqueles que devastariam sua vida com perguntas e investigações. E tinha mais certeza que nunca que a amava desde a desconfiança de sua humanidade.

_Nunca será fácil ficar sem você.

_Doug, eu não quero mais sentir o avesso disso. O depois é o oposto. Eu não consigo virar a chave... Doug, nunca mais acontecerá.

_Pra isso sim precisará ser forte. _falei amargo.

_Eu preciso superar você, porque não posso aceitar vir só quando você chamar.

Eu queria ligar e pedir pra que ficasse a vida inteira. Mas, não podia. Ela precisava ficar longe e eu era luz, câmera, fotos, um alvo ambulante.

_Doug, você deixaria de ser um Alfa por mim?

_..._acariciei seu rosto e seu cabelo.

_Então, já tomou a decisão por nós._levantou-se e se vestiu. _Doug, olha pra mim.

Olhei-a, sentindo que a minha garganta estava sendo esmagada, era a mão invisível da saudade me tirando o ar.

_Nunca mais, ouviu? _saiu.

3 comentários:

Gabi disse...

ahhhhhhhhh gritei aqui!

muito bom, meu coração acelerou e eu senti na pele o q o doug sentiu....

mto bom li, como sempre....

Anônimo disse...

rs ele vai merecer um bom castigo!!! isso sim, né gabi?

Verônica Medeiros disse...

A família nos constrói. E nos prende também. Como eu tenho raiva disso às vezes. Muito bom Li.

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